Segunda-feira, 15 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 21 de setembro de 2018
Elas vieram de lugares distantes como Irã, Afeganistão, Somália e Mianmar. Mas agora as crianças estão detidas em Nauru, uma ilha desolada de 20 quilômetros quadrados no Pacífico Sul, sem ter como saírem de lá. Estão presas no rígido sistema imigratório australiano, que as deixou isoladas e sem saída. Depois de anos vivendo no limbo, algumas mergulharam em depressão tão profunda que perderam a vontade de viver, dizem as pessoas que trabalham com elas. As informações são do jornal The Washington Post.
Cerca de cem crianças vivem em Nauru, uma das ilhas remotas onde a Austrália mantém centros de processamento de migrantes fora de suas próprias fronteiras. Elas estão aqui há tanto tempo que “várias crianças já perderam toda esperança, a ponto de terem desistido de falar ou se alimentar”, disse ao jornal Washington Post esta semana Daniel Webb, diretor de defesa legal do Centro Jurídico de Direitos Humanos, em Melbourne.
“Até alguns dos assessores médicos mais graduados do governo estão avisando que as crianças podem morrer”, ele disse. “É um milagre que nenhuma delas tenha morrido até agora.”
Quando deixaram seus países de origem, as famílias dessas crianças queriam chegar à Austrália, onde muitas pretendiam pedir asilo. Mas em 2013 as autoridades australianas mudaram a política migratória do país, autorizando a detenção de migrantes e candidatos a asilo que tentavam chegar à Austrália pelo mar.
Em vez de permitir que desembarquem no país, eles são levados, ao que parece por tempo indeterminado, para Nauru ou para a Ilha de Manus, que faz parte de Papua Nova Guiné.
Uma vez enviados para esses centros, os candidatos a asilo têm pouca esperança de chegarem à Austrália algum dia. Eles não querem retornar a seus países de origem, mas geralmente não têm outro lugar para ir.
Devastada pela extensa mineração a céu aberto de fosfato, 80% da ilha de Nauru é inabitável, e boa parte da vida marinha foi exterminada pelas substâncias vazadas durante a extração do material. O clima é quente e úmido o ano inteiro.
Profissionais médicos e de direitos humanos já disseram publicamente que, diante dessa incerteza, muitas crianças em Nauru que são candidatas a asilo desenvolveram problemas de saúde, incluindo uma condição conhecida como “síndrome da resignação”.
É uma condição médica grave que já foi registrada em outras populações de candidatos a asilo, especialmente na Suécia, e pode ser provocada por trauma e estresse.
As pessoas que desenvolvem a síndrome essencialmente param de comunicar-se com o mundo externo. Precisam fazer esforço para comer, beber e falar. Têm dificuldade em abrir os olhos; em casos extremos, ficam inconscientes e precisam de um tubo de alimentação. Na semana passada, o jornal britânico The Guardian noticiou que cerca de 12 crianças em Nauru estão se recusando a comer ou beber.
Webb disse que no ano passado mais de 30 crianças criticamente doentes foram tiradas da detenção em Nauru e levadas à Austrália para receber “atendimento médico de urgência”. Mas o governo australiano estaria resistindo a retirar pessoas de Nauru a não ser que seja legalmente obrigado a isso por decisão de um tribunal.
“A maioria desses casos envolveu crianças que tentaram o suicídio várias vezes ou deixaram de se comunicar, comer e beber”, disse Webb.
Recentemente uma menina de 12 anos em Nauru tentou atear fogo ao próprio corpo, e um tribunal ordenou que um menino de 10 anos que fez várias tentativas de suicídio recebesse tratamento na Austrália.
Em e-mail, um porta-voz do Departamento do Interior australiano disse que o governo australiano dá “apoio significativo” a Nauru para que forneça serviços de saúde e bem-estar.
“Uma gama de acordos de atendimento, bem-estar e apoio está em operação para dar atendimento às crianças e adolescentes refugiadas”, disse o porta-voz. “São contratados fornecedores terceiros para prestar serviços de saúde, educação, recreativos e culturais apropriados para as idades dos refugiados.”
Mas a Austrália vem sendo exortada a reavaliar sua política de processamento de migrantes fora de suas próprias fronteiras, política que, segundo as autoridades australianas, é necessária para limitar a migração.
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