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Política Javier Milei: o que o presidente argentino veio fazer no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro

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Flávio Bolsonaro (PL) oficializou no último sábado (25) sua candidatura à Presidência em um evento que contou com a presença de Javier Milei. (Foto: Reprodução)

Sem nenhuma aliança política consolidada, o senador Flávio Bolsonaro (PL) oficializou no último sábado (25) sua candidatura à Presidência em um evento que contou com a presença de Javier Milei. O presidente da Argentina subiu ao palco ao som de rock e fez um discurso em espanhol que durou quase meia hora, em que chamou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de “lixo careca” por ter negado pedido de visita a Jair Bolsonaro.

Milei, que tenta se posicionar como o líder da direita na América Latina, associou a candidatura de Flávio a uma “transformação política em curso” na região. Segundo ele, países da América Latina estão se alinhando à direita e abandonando a esquerda, movimento ao qual o Brasil pode se juntar com a eventual eleição de Flávio.

A vinda do presidente argentino ao Brasil ocorre em meio à sua baixa popularidade, catapultada por um escândalo recente de corrupção em seu governo e pelas dificuldades econômicas vividas em seu país.

As agendas de Flávio Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pré-candidato à reeleição, tiveram a participação do presidente argentino em ao menos duas atividades no sábado em São Paulo.

No Palácio dos Bandeirantes, com Tarcísio, Milei recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Depois, seguiu em direção ao Pacaembu, onde participou da convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio.

Em um momento em que o partido de Flávio é tido como isolado politicamente, sem uma chapa nem apoios partidários definidos, a figura de Milei dá musculatura para a base ideológica da campanha do filho mais velho do presidente.

Mas a atração internacional não deve converter votos, afirma Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializada em América Latina.

“Eu não sei se o Milei vai, de fato, gerar mais transferências de votos, mas reforça a identidade ideológica”, diz.

“A presença dele energiza, consolida o núcleo duro do eleitorado de direita, mas, muito mais no sentido de um símbolo de coragem discursiva e de radicalismo econômico”, prossegue.

“Dificilmente a figura de um presidente estrangeiro poderá converter o eleitor de centro ou aquele mais pragmático, porque as preocupações imediatas orbitam em torno da economia doméstica e dos serviços públicos locais.”

A visita de Milei ao Brasil faz parte de um projeto maior. “Milei tem esse plano de se consolidar em países onde a direita está crescendo”, afirma Bressan.

Em uma espécie de turnê pela América Latina, o presidente argentino seguirá, depois do Brasil, para a posse de Keiko Fujimori no Peru. Em seguida, irá para o Equador, onde deve realizar conversas com o presidente, também conservador, Daniel Noboa, segundo a Reuters.

Na sequência, Milei visitará a Colômbia para a posse de Abelardo de la Espriella, um outsider da direita radical que acaba de vencer as eleições presidenciais no país.

Para Bressan, muito mais do que apoiar Flávio ou prestigiar a vitória de um político da direita radical em outro país, Milei busca aumentar sua popularidade na região.

“O interesse dele em estar no Brasil não é só pelo Brasil, é por ele também”, afirma. “Ele não tem poder para mobilizar tantos votos, mas busca consolidar-se como uma liderança intelectual e política da direita ocidental.”

Esse movimento de se popularizar pela região vem na mesma esteira do avanço da direita radical na América Latina nos últimos anos. Com as vitórias recentes no Peru e na Colômbia, o mapa político da América Latina vem se alinhando ideologicamente ao presidente americano, Donald Trump.

Analistas afirmam que esse avanço pode ter impacto nas eleições brasileiras, que são, inclusive, passíveis de tensões provocadas por Trump.

“Os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país”, analisou Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), para a BBC News Brasil em junho.

Nesta semana, começaram a valer as novas tarifas impostas por Trump contra o Brasil, algo que o Flávio Bolsonaro afirma ter tentado impedir, sem sucesso. O impasse revela a complexidade do xadrez político na região.

Esta foi a terceira viagem de Milei ao Brasil desde que assumiu a Presidência da Argentina, em dezembro de 2023. Seu plano inicial era também visitar Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar em Brasília, mas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou seu pedido.

No entendimento do ministro, Bolsonaro está proibido de receber visitas com finalidade político-eleitoral até o fim das eleições. A decisão ocorreu após Flávio divulgar uma carta escrita pelo pai em apoio à sua pré-candidatura.

Os advogados de Bolsonaro recorreram, alegando que a negativa restringe a liberdade de pensamento do ex-presidente, segundo a Folha de São Paulo.

No mês passado, Flávio esteve na Argentina em encontro com Milei. Ao longo dos últimos meses, o senador também realizou uma série de viagens internacionais na tentativa de se alçar como o líder da direita na região.

O senador tenta contornar obstáculos importantes neste início oficial da campanha, com dificuldades para avançar entre as mulheres — que são a maioria do eleitorado —, trocas públicas de farpas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e seu nome atrelado ao escândalo do Banco Master.

Isso levou partidos do Centrão a declararem neutralidade nesta eleição, ao mesmo tempo em que viu o Supremo Tribunal Federal autorizar a abertura de uma investigação sobre os repasses que Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção da cinebiografia de seu pai.

Apesar da sucessão de crises, Flávio Bolsonaro segue competitivo na corrida eleitoral. O senador continua em segundo lugar na votação para o primeiro turno, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e aparece como único candidato capaz de rivalizar com o petista pela liderança, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, atualizado constantemente com os últimos levantamentos. Se o segundo turno fosse hoje, ele teria 42% das intenções de voto ante 46% de Lula.

Mas a ausência de alianças no momento em que sua candidatura é oficializada é um sinal, segundo analistas, de uma fragilidade política da campanha do senador, que tenta desfazer essa percepção trazendo para seu palanque o governador Tarcísio e o presidente Milei. (Com informações são da BBC News)

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