Terça-feira, 17 de março de 2026
Por Redação O Sul | 16 de março de 2026
Em meio ao julgamento americano sobre o vício de crianças e adolescentes em redes sociais, a ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, Daniela de Almeida, revelou ao programa Fantástico, da TV Globo, o descontentamento que a fez sair do emprego na plataforma.
“Eu tinha uma frustração imensa de fazer o meu trabalho por dentro de uma empresa e encontrar tantas barreiras para poder levantar formas mais seguras, formas mais íntegras de desenvolver as tecnologias que depois iam chegar ao público e que eu sabia que iam chegar também a crianças e adolescentes”, disse.
No mês passado, Mark Zuckerberg, fundador da Meta, empresa dona do Facebook, WhatsApp e Instagram, se sentou diante de um tribunal americano para depor pela primeira vez em um processo que pode mudar para sempre a relação das redes sociais com seus usuários mais jovens.
A acusação central: as gigantes da tecnologia viciam propositalmente crianças e adolescentes, faturando às custas de sua saúde mental.
O julgamento, que reúne mais de mil e seiscentas ações judiciais, pode criar uma jurisprudência inédita nos Estados Unidos sobre a responsabilização das empresas de mídia social.
A batalha legal foi iniciada em 2023 por uma jovem na Califórnia, cuja identidade é mantida em sigilo. Hoje com 20 anos, ela começou a usar redes sociais aos seis e, segundo seus advogados, foi diagnosticada com severos problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e ideação suicida, como consequência do acesso a conteúdos perigosos.
Marie Santini, diretora do Netlab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que as plataformas são criadas para viciar.
“Tudo isso foi desenhado para que crianças, adolescentes e adultos fiquem o máximo de tempo possível dentro da plataforma. O produto é desenhado pra reter e pra viciar”, afirmou.
Nos antebraços, a advogada Laura Márquez carrega duzentos e noventa e seis traços. Cada um, segundo ela, representa uma criança que morreu em decorrência dos danos causados pelas redes sociais e pela Inteligência Artificial.
Representando uma equipe de advogados no caso contra a Meta, ela afirma que as evidências são contundentes. “Você vai ver declarações de gente de dentro do Instagram dizendo coisas do tipo: ‘O Instagram é uma droga'”, revela.
O processo forçou a Meta a entregar milhões de documentos internos. Muitos deles, segundo a acusação, confirmam que a empresa não só sabia dos danos potenciais de seus produtos na saúde mental de adolescentes, como também realizava estudos sobre o cérebro jovem, ainda em desenvolvimento, para explorar suas vulnerabilidades neurológicas.
Os advogados chamam isso de “arquitetura do vício”, criada para causar dependência.
“Você vai ver documentos da Meta dizendo: ‘pegue os jovens, os jovens são os melhores’. E falando sobre crianças: ‘pré-adolescentes são animais de rebanho'”, denuncia Márquez, citando o material do processo.
Além da Meta, a Alphabet, dona do Google e YouTube, também é acusada. TikTok e Snapchat, que seriam incluídos na mesma ação, conseguiram fechar acordos confidenciais.
As acusações são reforçadas por Sarah Wynn-Williams, que trabalhou por seis anos na Meta e chegou a ocupar o cargo de diretora global de políticas públicas da empresa. Ela se tornou uma das vozes mais críticas sobre o tema. Em seu livro “Gente Descuidada”, ela detalha como a empresa capitaliza sentimentos negativos.
“A empresa desenvolveu a capacidade de avaliar quando um adolescente se sente inútil ou impotente”, explicou Sarah.
“Se uma menina de treze anos apaga uma selfie, porque não se sente bem com ela, essa é uma informação que a empresa consegue coletar”, diz. O que era feito com essa informação?
“Eles deram essa pesquisa para um anunciante de produtos de beleza porque, do ponto de vista do anunciante, o momento em que uma adolescente se sente sem valor é um bom momento pra veicular um anúncio de beleza”.
Em depoimento ao Senado americano, no ano passado, Sarah disse: “Eu perguntava aos executivos: ‘seu filho adolescente já usou o produto que vamos lançar?’. E eles respondiam: ‘meu filho adolescente não tem permissão para usar o Facebook. Meu adolescente não está no Instagram’. Esses executivos conhecem os danos que esses produtos causam”.
Em seu depoimento, Mark Zuckerberg negou que os aplicativos sejam feitos para viciar. Ele reiterou que a idade mínima para criar uma conta no Instagram é de 13 anos. No entanto, um documento interno da própria Meta, apresentado no processo, estimava que em 2015 a rede já contava com mais de quatro milhões de usuários abaixo dessa idade.
Questionado sobre recomendações de especialistas alertando para o impacto negativo de filtros de beleza, Zuckerberg afirmou que ignorou os avisos, considerando o uso dos filtros “uma questão de liberdade de expressão”.
Para a ativista Lóri, que também faz parte do processo, as consequências foram trágicas. Ela perdeu a filha, Annalee, de 18 anos, em 2020. “A ficha caiu quando li os diários dela, que diziam: ‘como alguém vai amar uma pessoa tão feia quanto eu? Vejo os perfis das outras garotas, estou destruída e não tenho futuro'”. Ela diz que as redes no celular da filha tinham conteúdos nocivos.
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