Domingo, 23 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 21 de agosto de 2026
Uma vacina terapêutica experimental de mRNA permitiu que pessoas com melanoma de alto risco tivessem uma sobrevida maior, livres do câncer, segundo anúncio feito pelas farmacêuticas Moderna e Merck à imprensa. As indústrias, entretanto, ainda não divulgaram detalhes do estudo que levaram a esse resultado e, por isso, especialistas pedem cautela. O trabalho, portanto, ainda não passou pela revisão de pares da comunidade acadêmica nem foi publicado em revista científica. Por décadas, as vacinas contra o câncer têm sido uma das ideias mais promissoras no tratamento da doença – oferecendo a esperança de utilizar o próprio sistema imunológico do paciente para atacar os tumores. A notícia fez com que as ações da Moderna disparassem 176%, enquanto as da Merck subiram 12%, chegando a US$ 150.
Em entrevista ao jornal americano The New York Times, o oncologista pediátrico Elias Sayour, da Universidade da Flórida (EUA), que não participou do estudo, afirmou que os resultados “podem ajudar a inaugurar uma nova onda de tratamentos terapêuticos para o câncer”. A tecnologia de mRNA, que foi fundamental para o desenvolvimento rápido de vacinas durante a pandemia de covid-19, trouxe velocidade e flexibilidade à busca por vacinas terapêuticas contra o câncer. Os cientistas podem usar a plataforma de mRNA para criar imunizantes sob medida e individualizados, alinhados à genética dos tumores de cada paciente.
As empresas anunciaram apenas uma visão geral dos resultados e prometeram apresentar os detalhes em um encontro médico internacional e aos órgãos reguladores brevemente. Segundo elas, o estudo foi realizado com 1.137 pessoas com melanoma de alto risco que passaram por cirurgia para a remoção do câncer. Como se trata de um estudo de fase 3, em que os cientistas buscam provar a eficácia do produto em larga escala, as farmacêuticas podem pedir autorização para a fabricação da vacina ao FDA assim que os dados forem publicados.
Ainda conforme as farmacêuticas, aqueles que receberam a vacina personalizada contra o câncer (Intismeran) em combinação com um medicamento de imunoterapia chamado Keytruda apresentaram menor probabilidade de recorrência do câncer em comparação aos que receberam apenas o Keytruda. Na fase 2 do estudo, a porcentagem alcançava 49%. Os cientistas criaram a Intismeran sequenciando o tumor do paciente e selecionando os chamados “neoantígenos”, que ensinam o sistema imunológico a atacar o câncer. Eles utilizam a tecnologia rápida e flexível do mRNA para criar uma vacina com neoantígenos selecionados para cada paciente – processo que leva cerca de seis semanas.
“É altamente plausível que esse paradigma de tratamento possa ser estendido para outros tipos de câncer também”, diz Catherine Wu, professora de Medicina na Harvard Medical School e no Dana-Farber Cancer Institute, também em entrevista ao The New York Times. A vacina de mRNA funciona ensinando o próprio corpo a produzir uma proteína inofensiva do vírus ou do tumor, com o objetivo de “treinar” o sistema imunológico. Em vez de introduzir o agente infeccioso morto ou enfraquecido, ela entrega apenas a “receita” temporária para a resposta imune.
A vacina entrega uma fita sintética de RNA mensageiro encapsulada em uma camada protetora de lipídios (gordura), garantindo que ela entre com segurança nas células. Dentro da célula (no citoplasma), a maquinaria celular lê essa instrução e produz apenas uma proteína específica característica do patógeno (como a proteína Spike do vírus, como se viu no caso da covid-19, ou um neoantígeno de tumor). A proteína produzida é exibida na superfície celular. O sistema imunológico reconhece aquele elemento como estranho e gera anticorpos e células de memória para combatê-lo.
Embora estudos menores já tenham mostrado o potencial dessa abordagem, o ensaio da Moderna e da Merck pode ser um marco na demonstração da tecnologia – e um primeiro passo para transformar o tratamento do câncer com terapias individualizadas, capazes de, em última análise, se anteciparem às mutações da doença.
O professor no Barts Cancer Institute de Londres Marco Gerlinger ressaltou, porém, que o comunicado à imprensa oferecia poucos detalhes. Não se sabe ainda, por exemplo, se a taxa de reincidência aumentará durante um período mais longo, como três anos, disse o oncologista.
Jeffrey Weber, vice-diretor do Centro de Câncer de Perlmutter, reforçou o histórico desafiador das vacinas contra o câncer para dizer que, embora a tecnologia de mRNA traga avanços inéditos, a comunidade científica exige cautela e evidências robustas de ensaios de fase 3 para validar que ela realmente supera os tratamentos tradicionais de forma consistente. Ele ponderou também o custo de se produzir vacinas individualizadas e o alcance que o tratamento teria. As informações são dos jornais O Estado de S. Paulo e The New York Times.
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