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Colunistas Lembranças que ficaram (69): Uma gaita, os amigos e… uma história

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Lá pelo ano de 1950, com 10 anos de idade, abaixo de muita luta, eu já havia aprendido tocar algumas valsinhas e até já aprendera a tocar o incrível tango “La Cumparsita”. Ninguém pensou nem eu sabia que minha vocação musical era ‘tocar de ouvido’ mas acabei passando meses naquelas insuportáveis aulas de ‘teoria e solfejo’ (cachorro-vai-cachorro-vem – do, ré, mi, fá, sol, – sol, fá, mi, ré, dó) que são necessárias para a formação musical. Mas ‘meio de arrasto’ ia indo. Na minha pequena cidade, tinha uma Rádio mais pequena ainda, a ZYY 5 Rádio Repórter de Ijuí cuja potência de transmissão não ia muito além de 1 km da emissora. O Diretor (coitado) era o Emídio Puccini que se esforçava muito para fazer um bom trabalho. Lembro que uma das músicas dominantes – sucesso na época – era “Que Será”, um bolerão de ‘zona’, cantado por Dalva de Oliveira. Puccini criou um programa de auditório transmitido do palco do Cine Teatro Serrano, todo domingo pela manhã. Ora, domingo de manhã, numa cidadezinha pequena, no meio da colônia, com nada pra fazer, onde o maior programa era ir à Missa ou ao Culto, o auditório acabava enchendo. O nome do programa era ‘sui generis’: “Hora do Penetra” e como uma das últimas atrações, tinha uma disputa de toque de gaita.

Certa manhã, num dos raros domingos que não fomos ‘pra tia Rosa’ – porque íamos sempre – eu ouvi pelo rádio o nome de 3 ou 4 concorrentes e pensei: ‘desses aí eu acho que ganho’. Para o domingo seguinte, bastante temeroso e encabulado, fui na Rádio e me inscrevi para o concurso de gaitas. No dia, com o auditório cheio de gurizada, fazendo uma barulhada infernal, gritando e batendo pés, eu tremendo como vara verde, fui chamado ao palco na minha vez. Morrendo de medo, quase não fui. Mas tinha que me superar, e subi ao palco. Fiquei, especialmente, nervoso pois vi que naquele domingo, um dos concorrentes era um rapaz que pouco conhecia – o Helinho – mas sabia que era um excelente acordeonista – desses que nascem pronto tipo Borghetinho. Dedilhava uma gaita coisa mais linda de ver.

A decisão não era tomada por um júri que entendesse do assunto, mas simplesmente medindo o volume, quantidade e tempo de palmas do auditório. Toquei e ganhei. Era o primeiro dinheirinho meu, que punha no bolso. Me lembro: ‘Meu Deus ganhei 20 cruzeiros’ (que mais ou menos equivale a 80 reais de hoje – a entrada do cinema era 2 cruzeiros). Não cabia em mim de feliz…

Por muitos e muitos domingos seguintes, até acabar o programa, eu ganhei todos que fui. (Não fui em todos). No final já não se apresentava ninguém, só o Helinho que regulava em idade comigo, e tinha uma bela gaita alemã Honner de 120 baixos. A minha não ficava por menos. Era uma ‘Setimio Soprani” italiana de 80 baixos e 10 teclas de registro de modulação de som. Uma grande novidade na época. O Helinho tocava bem mais e muito melhor que eu e dedilhava aquele teclado com maestria mas por alguma razão era sempre eu o mais aplaudido e ganhava. Tanto ele era um excelente acordeonista que anos depois tocava com “Os Futuristas” que fez enorme sucesso em todos estados do sul do Brasil, no Uruguay e no Paraguay. Eu conhecia música, ritmo e execução pois mesmo sem gostar eu estudara e sabia disso, mas estava longe de me igualar ao Helinho. Ao longo da vida, de vez em quando me lembrava da “Hora do Penetra”, e não entendia por que eu sempre ganhava se o Helinho tocava melhor. Até que…

Quando terminei o Ginásio, eu e uma turma de guris viemos fazer o Científico e a Faculdade em Porto Alegre. Morei em SP e andei muito por esse “mundão véio de Deus” e voltei para Porto Alegre e reencontrei os antigos “guris de Ijuí” e os novos amigos feitos aqui. Seguido “assávamos uma carne” e se conversava de tudo e rememorávamos antigas histórias. Os churrascos eram sempre na minha casa na Av. Nilo Peçanha. Numa noite de um desses churrasquinhos, então, surpreendentemente, fico sabendo por que eu sempre ganhava. Metade de Ijuí eram meus parentes ou parentes de meus parentes, a família era antiga e muito conhecida, tinha um monte de amigos da escola e a gurizada minha amiga, de propósito, sentava nas primeiras filas para me aplaudir e faziam a maior algazarra, sem nem saber ou se importar com o que eu tocasse. Tocava e pronto. Aplaudiam e gritavam. E eu ganhava o prêmio. Hoje, 76 anos passados, fico sabendo disso. Ora veja…

* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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