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Economia Longe das zonas de conflito: enquanto a guerra na Ucrânia se arrasta e o Oriente Médio se mostra um barril de pólvora, o Brasil experimenta um “choque positivo”, melhorando o desempenho da balança comercial

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Como grande exportador de commodities, o Brasil experimenta um “choque positivo” em trocas comerciais. (Foto: Reprodução)

O cenário geopolítico global recente – do tarifaço de Donald Trump à guerra no Oriente Médio – abriu uma janela de oportunidade para o Brasil atrair investimentos estrangeiros. E os olhares de fora já vão além dos recordes sucessivos da Bolsa de São Paulo, a B3, desde o início do ano. Enquanto o dólar perde força no mundo e investidores buscam negócios em economias emergentes, as prospecções de projetos de longo prazo por aqui estão se aquecendo, apontam analistas e consultores.

Distante de áreas de conflito e com um acervo de recursos naturais cobiçados – de petróleo e fontes de energia renovável a terras férteis e minerais críticos –, o Brasil tem sido visto com um olhar mais benevolente, a despeito da proximidade de mais uma eleição presidencial acirrada e de persistentes entraves como a fragilidade fiscal e os juros altos.

A comparação com outros países emergentes ajuda, mas, opinam especialistas, é um movimento ainda aquém do real potencial econômico brasileiro. Se saíssem de cena, incertezas jurídicas e regulatórias poderiam ajudar a atrair ainda mais capital de longo prazo. Por outro lado, os riscos do país tornam negócios por aqui mais baratos para quem vem de fora às compras.

Além do forte fluxo para a Bolsa, bancos e consultorias brasileiras têm sido mais procurados, principalmente por grupos europeus e asiáticos interessados em fatias em empresas ou negócios inteiros. É um movimento ainda difuso, sem números consolidados, mas que já aparece em relatórios e comentários de financistas.

“Estamos vendo um nível de transações melhor que o do ano passado, com maior interesse por ativos brasileiros, inclusive (empresas) de tamanho menor, sobretudo nas áreas de tecnologia, serviços financeiros, energia renovável, alimentação e também industrial”, diz Isaias Sznifer, sócio-fundador da Seneca Evercore. “É um ano que se desenha para ser bom em transações.”

Ainda assim, ele avalia que é cedo para cravar que haverá crescimento nos aportes estrangeiros em projetos de longo prazo. Do lado de cá, empresários brasileiros tentam acelerar conversas para fechar negócios antes das eleições.

“E como estamos há muito tempo sem IPO (oferta de novas ações em Bolsa), também vemos fundos reciclando seus portfólios, monetizando ativos, vendendo um negócio para dar retorno ao investidor e abrir novas frentes de investimento”, diz. “Os múltiplos de transações no Brasil têm desconto na comparação com as do mercado desenvolvido justamente pelos riscos envolvidos. Isso não mudou.”

As concessões em infraestrutura são vistas como um ponto de captação desse interesse. Apesar do retorno menor, são ativos de desempenho mais estável e de longo prazo, explicam os especialistas. A recente revisão de contratos no setor de aeroportos, por exemplo, resultou em maior interesse de grupos estrangeiros pelo Galeão, no Rio. No fim do mês passado, a espanhola Aena arrematou o terminal por R$ 2,9 bilhões, 210% a mais que o valor mínimo do leilão.

Num sinal de maior apetite pelo Brasil, o Mubadala Capital, braço de investimento privado do fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, acaba de formalizar seu terceiro fundo estratégico voltado para o país. O Brazil Special Opportunities Fund III soma mais de US$ 900 milhões em compromissos de investidores interessados no país, acima do objetivo inicial de US$ 750 milhões.

O plano é comprar o controle de negócios em “situações complexas”. Entre aquisições já fechadas por aqui estão as das redes de alimentação Starbucks e Subway, por meio da Zamp, dona do Burger King.

O contexto interno de juros altos por longo tempo aproxima os empresários brasileiros das ofertas de fora. Com o caixa pressionado pelo aumento no custo de capital, o país bateu recorde de recuperações judiciais. Companhias fazem reestruturações financeiras e colocam ativos à venda para evitar esse desfecho. Em paralelo, as grandes corporações atraem aportes para a Bolsa.

Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, diz que, nas condições globais de hoje, os ativos no Brasil, em geral, ficam ainda mais atraentes para investidores de fora que não têm encontrado perspectivas mais favoráveis em outros países:

“A oportunidade aumentou. Isso não tem muito a ver com o brilho e a luz da história macroeconômica do Brasil, mas com a escuridão que nos rodeia. Seja o que for, a vantagem está aí. Só que, neste momento, esse sentimento positivo é muito circunstancial.”

As circunstâncias atuais acabam valorizando o fato de o Brasil estar longe das zonas de conflito. Enquanto a guerra na Ucrânia se arrasta e o Oriente Médio se mostra um barril de pólvora, a maior economia da América Latina não tem esse tipo de risco.

Como grande exportador de commodities, principalmente de petróleo, minerais e alimentos, o Brasil experimenta um “choque positivo” em trocas comerciais, melhorando o desempenho da balança comercial. Tem ainda um grande mercado consumidor, energia abundante e um setor financeiro mais sofisticado que o de boa parte dos emergentes, a começar pelos vizinhos sul-americanos, destaca Ramos.

Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos e professor de economia do Insper, ressalta ainda o feijão-com-arroz: o Brasil é uma democracia com instituições estáveis – a despeito dos desafios recentes –, avançou em algumas reformas , tem inflação em patamar aceitável e juros em trajetória de queda, direção oposta à tendência de vários outros países. Mas oferece seus próprios riscos, observa:

“Não é que viramos vitrine nem a capa da The Economist, com o Cristo decolando de novo. É que o mundo está muito ruim. O Brasil ainda tem uma baita lição de casa para fazer.”

Ele faz referência à capa da revista britânica de 2009, que exibia o Cristo Redentor decolando, numa alusão aos indicadores econômicos do Brasil ascendentes. Nos anos seguintes, porém, a maré virou. O país perdeu o grau de investimento com a elevação de riscos a reboque de uma recessão. Os altos e baixos, somados a persistentes inseguranças jurídicas e regulatórias, cobram um preço dos ativos do país.

Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou de 1,6% para 1,9% a previsão para o país em 2026, destacando ganhos do Brasil na exportação de petróleo. Na direção contrária, o FMI alertou que a dívida pública bruta deve terminar o ano em 96,5% do PIB, batendo no patamar de 100% já em 2027. Em paralelo, cresce entre economistas a estimativa de que a inflação pode encerrar 2026 acima da meta. As informações são do jornal O Globo.

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