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Política Lula muda tom de discurso e reconhece limitações do governo

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a reconhecer as dificuldades de sua gestão e a adotar um discurso mais “pé no chão”. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Autor do bordão mais conhecido das últimas décadas em campanhas presidenciais – “Nunca antes na História deste país” –, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a reconhecer as dificuldades de sua gestão e a adotar um discurso mais “pé no chão”. Após debater com aliados os obstáculos da corrida eleitoral, o petista tenta modular o tom ufanista e afirma até mesmo que poderia ter feito “muito mais”.

A mudança na postura ocorre em um momento em que a campanha à reeleição está pressionada por pesquisas de intenção de voto. Os últimos levantamentos mostraram cenário de empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL) – no Datafolha divulgado na quinta-feira, o petista aparece com 46%, contra 44% do candidato do PL em eventual segundo turno, enquanto na Quaest de segunda-feira o senador está numericamente à frente (42% a 40%).

A modulação no discurso vinha sendo recomendada por aliados e passou a ser colocada em prática nos últimos dias. A inflexão mira o eleitor que se declara independente, levando em conta também a divulgação de propostas para um possível quarto mandato.

A avaliação de aliados é que é preciso seguir fazendo as comparações entre o governo petista e o que foi a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas, ao mesmo tempo, reconhecer que a situação atual do país, sobretudo na questão do custo de vida, está longe de ser a ideal.

A ideia é tentar demonstrar que um eventual governo Flávio deverá ser muito pior, apresentando essa possibilidade como um “desastre” para o Brasil.

A primeira mudança de tom do discurso do presidente foi feita no dia 10 de setembro, quando Lula concedeu entrevista ao SBT. Na ocasião, ele disse que lamentava muito que o governo, apesar de suas políticas econômicas, ainda não tivesse alcançado a expectativa das pessoas.

“Você pensa que eu não fico triste de saber o que nós fizemos na economia e que ainda assim a gente não atendeu a expectativa da sociedade? Porque o custo de vida está caro”, afirmou o presidente.

A declaração foi considerada uma tentativa de mobilizar o eleitor indeciso. De lá para cá, esse tipo de postura passou a ser adotada nos discursos públicos do presidente e em outras entrevistas.

À Record, na última terça-feira, ao falar sobre a inflação do preço dos alimentos, o petista disse que “não resolvemos tudo”, mas destacou que foram dados passos “muito grandes” para “evitar que o povo morresse de fome”.

Já em entrevista ao podcast Desce a Letra, no dia seguinte, voltou ao tema ao dizer que gostaria de ter feito “muito mais” na sua gestão.

“Estou bem com as coisas que estamos fazendo no governo, obviamente que eu queria fazer muito mais, queria poder ter feito muito mais, mas as dificuldades foram enormes”, afirmou.

Endividamento

Estrategistas da campanha afirmam que esse tipo de fala busca mostrar que Lula é sensível ao sofrimento das pessoas, especialmente em relação ao endividamento das famílias.

O presidente vem testando o argumento, especialmente ao tratar da economia. A avaliação é que o petista se aproxima do eleitor ao reconhecer problemas reais. Também favorece o desempenho entre indecisos admitir que o governo não fez tudo que podia, sem atribuir as dificuldades exclusivamente às altas taxas de juros.

Integrantes da campanha afirmam que o presidente deve demonstrar que sente a dor das pessoas e propor soluções para suas angústias. Por essa estratégia, Lula deve modular os elogios à própria gestão, para passar a ideia de que o cenário está longe do ideal e vender esperança de um futuro melhor.

Ainda nessa linha, interlocutores do presidente afirmam que a campanha deve centrar esforços no diálogo com os eleitores para apontar as propostas que deverão nortear um eventual quarto mandato do petista. O slogan oficial da campanha de Lula, por exemplo, trata disso: “o Brasil pronto para mais”.

Éden Valadares, secretário de comunicação do PT e integrante da coordenação, diz que há uma orientação de Lula para que sejam feitas comparações das propostas de cada candidato e das gestões Bolsonaro e Lula, discutindo medidas que impactam na realidade da população, destacando custo de vida, segurança, educação e saúde.

“Nunca foi nossa ideia apresentar o governo Lula como um projeto finalizado, mas em processo, em construção e por isso a necessidade de um novo mandato. Fez muito, mas ainda tem muito para fazer”, diz Éden Valadares.

A adoção de um tom mais “pé no chão” de Lula foi discutida em reunião da executiva nacional do PT que buscou traçar novas estratégias para a campanha do presidente, diante da percepção que ele está sendo prejudicado eleitoralmente pela crise institucional sem precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF).

Um petista que acompanhou a conversa no último dia 10 afirma, sob reserva, que uma das ideias discutidas nessa mudança de discurso é também apontar para o que poderá acontecer com o Brasil – e o mundo – numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro.

Em entrevista à GloboNews na sexta-feira, o presidente do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, também seguiu essa linha adotada por Lula.

“A gente pode ter cometido erros no governo. A gente pode ter desafios para aprimorar o Brasil, podemos tornar o Brasil mais eficiente, melhorar o gasto público. A gente pode reconhecer que temos muito o que fazer para o Brasil melhorar. Mas é muito diferente o nosso projeto do deles”, disse Edinho.

Diversas peças de campanha que estão sendo divulgadas nas redes sociais e em grupos alinhados ao PT já adotam esse tom. Nesta semana, por exemplo, foram divulgadas fotografias que remetem ao governo Jair Bolsonaro, como as vítimas da Covid-19 (com imagem de um cemitério vista do alto), a fome (retratada pela fila em açougues para conseguir ossos) e o desmatamento com as frases: “Se o pai fez isso, imagina o filho”. As informações são do jornal O Globo.

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