Terça-feira, 27 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 27 de outubro de 2026
Reeleito presidente da República com mais de 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de enfrentar o aumento do endividamento público e a pressão sobre as contas do governo. A dívida do governo geral passou de 71,68% do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro de 2022, para 82,87% em agosto de 2026, último dado disponível. O cenário exigirá medidas para conter as despesas e evitar o agravamento dos desequilíbrios fiscais.
Em seu programa de governo, Lula prometeu manter o arcabouço fiscal, com medidas para controlar os gastos e enfrentar distorções no sistema de emendas parlamentares. Durante a campanha, porém, não detalhou como pretende realizar o ajuste. Ao mesmo tempo, apresentou propostas como ampliação de benefícios sociais, passe livre no transporte público aos fins de semana, acesso a canetas emagrecedoras pelo SUS, renegociação de dívidas tributárias, envio de recursos via Pix para microempreendedores individuais (MEIs) e criação de uma modalidade universitária do Pé-de-Meia, além de uma nova rodada do Desenrola.
A vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) também deve provocar volatilidade no mercado financeiro, segundo analistas. Parte dos investidores apostava na vitória do candidato do PL e na possibilidade de mudanças na condução da política econômica. Para Eduardo Velho, da JF Trust Gestora de Recursos, a reação negativa dependerá, entre outros fatores, das perspectivas para o ajuste fiscal e da escolha do próximo ministro da Fazenda.
Fazenda
Uma das principais incertezas do quarto mandato é quem comandará a economia. Entre os nomes cotados estão o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que assumiu o cargo após a saída de Fernando Haddad, e o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, que tem proximidade com o PT.
Haddad, por sua vez, é apontado como possível nome para a Casa Civil. Caso seja escolhido, poderá atuar para manter Durigan na Fazenda e preservar a atual orientação econômica. A derrota de Haddad para Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa pelo governo de São Paulo, ainda no primeiro turno, entretanto, enfraqueceu sua posição política.
Segundo Velho, a manutenção de Durigan ou a escolha de Moretti seria interpretada pelo mercado como continuidade da política econômica atual. Um nome novo, mais alinhado ao ajuste fiscal, poderia ser recebido positivamente pelos investidores.
Ajuste fiscal
A equipe econômica prevê resultado primário positivo equivalente a 0,5% do PIB em 2027, mas a meta é vista com ceticismo por parte do mercado financeiro. Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, Lula enfrentará dificuldades para recuperar a confiança dos investidores e negociar com um Congresso que, em sua avaliação, poderá adotar uma postura de confronto com o governo.
O programa petista não prevê privatizações como estratégia para reduzir a dívida. A proposta defende o papel do Estado no desenvolvimento econômico e cita concessões de infraestrutura que combinem investimentos públicos e privados.
Outra preocupação é o crescimento das despesas obrigatórias, que já representam cerca de 92% do Orçamento da União. Previdência, assistência social, saúde e educação concentram mais de 80% dos recursos e reduzem o espaço disponível para investimentos e custeio da máquina pública. Projeções do governo indicam que, sem medidas para conter os gastos, poderá faltar dinheiro para despesas não obrigatórias a partir de 2028.
O reajuste do salário mínimo seguirá a regra que considera a inflação e o crescimento do PIB de dois anos antes, limitado a 2,5% de ganho real anual. Lula também rejeitou mudanças nas regras de financiamento da saúde e da educação e negou alterações no Benefício de Prestação Continuada (BPC), embora essas despesas estejam entre os fatores de pressão sobre o Orçamento.
A economista Selene Peres Nunes, uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, defende que o ajuste passe por mudanças nas despesas com Previdência, assistência, saúde e educação, além do corte de benefícios extras no funcionalismo e de uma reforma administrativa que alcance os cargos mais altos do serviço público.
As emendas parlamentares também pressionam as contas públicas. No Orçamento de 2026, o Congresso aprovou R$ 62 bilhões nessa modalidade, dos quais R$ 49,9 bilhões foram destinados pelos próprios parlamentares. A revisão desse sistema está entre os desafios para o próximo mandato.
Indústria digital e políticas sociais
Além da agenda fiscal, Lula pretende investir no desenvolvimento de uma indústria digital no País. Durante a campanha, o presidente também destacou as indústrias verde e criativa como áreas capazes de gerar empregos e ampliar a formação profissional.
Na área da educação, prometeu universalizar o Pé-de-Meia para estudantes do ensino médio e criar uma modalidade voltada aos universitários. As propostas se somam à intenção de manter, aperfeiçoar e ampliar programas de proteção social, como o Bolsa Família. (Com informações de O Estado de S.Paulo)
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