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Saúde Mais da metade dos casos de demência podem ser prevenidos; veja como

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Estudo estima que 54% dos casos de demência na América Latina estão ligados a fatores potencialmente modificáveis. (Foto: Reprodução)

E se fosse possível reduzir drasticamente os casos de Alzheimer e outras demências sem descobrir uma nova cura? A resposta pode estar em algo muito menos futurista: prevenir fatores de risco já conhecidos.

Um estudo da Faculdade de Medicina da USP, publicado na revista The Lancet Global Health, estimou que 54% dos casos de demência na América Latina estão ligados a fatores potencialmente modificáveis. O percentual é superior à média observada em outras regiões do mundo, onde cerca de 40% dos casos poderiam ser evitados.

A pesquisa avaliou dados de Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Honduras, México e Peru, identificando o impacto de 12 fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de demência. Entre eles estão hipertensão, perda auditiva, obesidade, sedentarismo, diabetes, tabagismo, depressão, consumo excessivo de álcool, poluição do ar, traumatismos cranianos, isolamento social e baixa escolaridade.

Os pesquisadores analisaram não apenas a frequência desses fatores, mas também a relação entre eles. Dessa forma, conseguiram estimar quanto cada condição contribui individualmente para o risco de demência.

– Educação – um fator que começa na infância: Entre todos os fatores analisados, a escolaridade se destacou na América Latina. Segundo o estudo, pessoas que permaneceram menos de oito anos na escola apresentam maior risco de desenvolver demência ao longo da vida.

Isso acontece porque os anos de aprendizagem ajudam a construir a chamada reserva cognitiva, um conjunto de conexões neurais que torna o cérebro mais resistente aos efeitos do envelhecimento e das doenças neurodegenerativas.

No Brasil, eliminar a baixa escolaridade reduziria os casos de demência em 7,7%. Na Bolívia, onde o problema é ainda mais prevalente, a queda chegaria a 10,8%.

O impacto reflete uma realidade histórica da região. Entre os brasileiros com mais de 60 anos, a média de escolaridade é de aproximadamente cinco anos, e entre 15% e 20% dessa população ainda é analfabeta.

– Pressão alta também afeta o cérebro: Se fosse preciso escolher apenas uma prioridade de saúde pública para reduzir os casos de demência no Brasil, a hipertensão estaria entre as principais candidatas.

O estudo aponta que eliminar a pressão alta reduziria em 7,6% os casos de demência entre brasileiros. Na Argentina, o impacto chegaria a 9,4%, enquanto no Chile seria de 8,3%.

Embora seja amplamente associada a infartos e doenças cardiovasculares, a hipertensão também compromete a saúde cerebral. A pressão elevada danifica os vasos sanguíneos que irrigam o cérebro, reduzindo o fluxo de sangue e favorecendo a morte de neurônios ao longo dos anos.

Além disso, aumenta o risco de AVC (acidente vascular cerebral), uma condição diretamente associada ao desenvolvimento de demência vascular.

– Papel surpreendente da audição Outro fator que chama atenção é a perda auditiva. No Brasil, a correção desse problema poderia evitar 6,8% dos casos de demência. Em estudos internacionais, a perda de audição aparece repetidamente entre os principais fatores de risco modificáveis para doenças neurodegenerativas.

A explicação está na forma como o cérebro processa informações. A audição fornece estímulos constantes que ajudam a manter diferentes circuitos cerebrais ativos. Quando a capacidade auditiva diminui, parte desse estímulo desaparece, reduzindo o engajamento cognitivo ao longo do tempo.

Por isso, proteger a audição desde cedo é considerado uma estratégia importante de prevenção. Evitar volumes excessivos em fones de ouvido e utilizar proteção auricular em ambientes muito barulhentos são medidas simples que podem trazer benefícios duradouros.

– Prevenção começa décadas antes dos sintomas: Um dos principais recados do estudo é que a prevenção da demência não começa na velhice.

Muitos dos fatores analisados acumulam seus efeitos ao longo de décadas. A educação influencia o cérebro desde a infância. A obesidade, o sedentarismo, o consumo excessivo de álcool e os traumatismos cranianos costumam exercer impacto a partir da juventude e da vida adulta.

Isso significa que esperar o surgimento dos primeiros esquecimentos para agir pode ser tarde demais.

A boa notícia é que a maior parte desses fatores pode ser modificada. Controlar a pressão arterial, manter uma rotina de atividade física, evitar o tabagismo, tratar a perda auditiva, proteger a saúde mental e investir em educação estão entre as estratégias mais promissoras para preservar a cognição.

– Desafio para toda a América Latina: A preocupação é especialmente relevante porque a América Latina envelhece em ritmo acelerado. Atualmente, cerca de 8,5% dos latino-americanos com mais de 65 anos vivem com algum tipo de demência, percentual superior ao observado em muitas outras regiões do mundo.

Os pesquisadores destacam que mesmo reduções modestas podem gerar resultados expressivos. Segundo as projeções do estudo, uma queda de apenas 15% na prevalência de cada um dos 12 fatores de risco teria evitado cerca de 784 mil casos de demência no Brasil em 2019.

Mantido esse esforço ao longo das próximas décadas, o país poderia chegar a 2050 com aproximadamente 2,4 milhões de casos a menos.

Embora a idade continue sendo o principal fator de risco para a demência, o envelhecimento do cérebro não depende apenas da genética. Em grande parte, ele também é moldado pelas escolhas individuais e pelas políticas públicas adotadas ao longo da vida. As informações são do portal de notícias UOL.

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