Quarta-feira, 01 de Abril de 2020

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Brasil Mesmo antes de assumir, o futuro ministro das Relações Exteriores “expurga” diplomatas não alinhados

As declarações do ministro foram dadas em aula magna. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Mesmo antes de assumir, o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, já está promovendo mudanças no Itamaraty que são vistas pelos diplomatas como expurgos. Dois respeitados embaixadores que iam assumir altos cargos em Brasília foram informados pela equipe de transição do governo Jair Bolsonaro de que seus serviços não eram mais necessários e estão encostados, sem função.

É natural que os ministros montem suas equipes. Mas as mudanças na estrutura do ministério acontecem apenas após a posse dos chanceleres — o novo ministro começou a “demitir” pessoas antes mesmo de assumir.

Existe a percepção de que Araújo pretende promover um choque geracional e dar cargos de chefia a diplomatas mais jovens.

O próprio Araújo, aos 51 anos, é considerado jovem para o cargo de chanceler — e acaba de ser promovido ao ranking de embaixador. Otavio Brandelli, indicado por Araújo para ser o secretário-geral do Itamaraty, segundo posto na hierarquia do Ministério das Relações Exteriores, também é jovem, tem 54 anos.

Everton Vargas, de 63, deixara o cargo de embaixador na União Europeia para assumir como subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia. Foi informado de que a subsecretaria não mais existirá no formato atual e não recebeu nenhuma indicação de que receberá outra função.

O embaixador Ricardo Neiva Tavares era o titular da embaixada em Viena e ia assumir a subsecretaria-geral de Assuntos Políticos Multilaterais, Europa e América do Norte. Também foi orientado a não assumir o cargo.

Os atuais ocupantes das subsecretarias também foram informados de que não permanecerão em seus cargos, porque, entre outras coisas, a reforma no organograma da instituição irá fundir algumas delas.

Mas, novamente, a forma como foi feita a comunicação foi vista como bastante deselegante — alguns foram “demitidos” por telefone.

Diversos diplomatas ouvidos pela reportagem descrevem o clima no Itamaraty como sendo de “caça às bruxas” e “incerteza”. O medo é de que haverá uma limpeza geral, e jovens diplomatas que não tenham alinhamento com as gestões anteriores ganharão espaço.

O ex-chanceler Celso Amorim também fez expurgos durante o governo Lula (2003-2010), e deslocou diplomatas que eram vistos como mais próximos de governos tucanos, como Gelson Fonseca, Marcos Caramuru e José Alfredo Graça Lima, em cargos de menor destaque. Mas Amorim já havia assumido como ministro e os diplomatas não ficaram sem função, foram apenas alocados para postos de menor destaque, fora do País.

Retraído

O Ernesto Araújo descrito por muitos diplomatas que o conheceram em 29 anos de carreira no Itamaraty é um funcionário público retraído, discretíssimo e treinado para defender o país que representa sem criar confusão.

Para espanto até de colegas que trabalharam ao seu lado, um personagem muito diferente surgiu nos últimos meses, quando Araújo se movimentou rapidamente até assegurar a indicação do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), para chefiar o Ministério das Relações Exteriores.

No blog Metapolítica 17, que ele criou na reta final da corrida eleitoral, Araújo se apresenta como alguém que deseja “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, descrita como um “sistema anti-humano e anti-cristão”, cujo fim seria “romper a conexão entre Deus e o homem, tornando o homem escravo e Deus irrelevante”.

Na véspera do primeiro turno da eleição, após acompanhar uma carreata de apoio a Bolsonaro em Brasília, Araújo classificou a campanha como um movimento feito de “amor e esperança”. O presidente eleito definiu sua escolha como chanceler duas semanas depois do segundo turno.

Araújo teve um padrinho ilustre nas fileiras bolsonaristas, o escritor Olavo de Carvalho, pensador conservador que vive nos EUA e tem uma legião de seguidores nas redes sociais. Segundo Olavo, os dois se conheceram há cerca de um ano, ou seja, quando o diplomata já havia encerrado sua temporada em Washington e estava trabalhando no Brasil.

 

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