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Economia Mesmo com programas governamentais de auxílio, cresce o número de brasileiros inadimplentes

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É difícil vislumbrar uma reversão desse quadro no curto prazo. (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Dados do Banco Central (BC) expuseram uma realidade que boa parte dos brasileiros conhece bem. A inadimplência média nas operações de crédito total subiu de 4,6% em abril para 4,7% em maio, o maior nível da série histórica, iniciada em 2011. Decomposto, o indicador descreve um cenário igualmente ruim. Em operações de crédito livre, as dívidas com atraso há mais de 90 dias cresceram de 6,1% para 6,2%; nessa mesma modalidade, o calote entre as pessoas físicas avançou de 7,4% para 7,6%, e entre empresas aumentou de 4% para 4,1%.

Se parte desse fenômeno até pode ser atribuída a uma mudança na forma de contabilização da inadimplência pelo Banco Central, como a própria instituição reconheceu, é inegável que a pindaíba é generalizada entre pessoas físicas e jurídicas e os mais diversos setores da economia. Mesmo nas operações de crédito direcionado, que fazem uso de recursos da poupança e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para cobrar juros mais baixos, a inadimplência subiu de 2,7% para 2,8%.

Com uma taxa básica de juros tão elevada há tanto tempo, não havia mesmo como ser diferente. O governo já não disfarça a preocupação com o impacto que esse aperto pode causar nas eleições, mas prefere atuar nas consequências desse problema em vez de encarar suas causas de frente. Foi nesse espírito que decidiu lançar uma nova etapa do Desenrola no início de maio e, desde então, as dívidas renegociadas já somam cerca de R$ 15 bilhões.

A primeira edição do programa, lançada em 2023, teve efeito no curto prazo, mas foi uma questão de meses até que os encalacrados se afundassem em novas dívidas. O problema é que parte da população tem utilizado o crédito não como uma maneira de adquirir patrimônio, mas como um complemento de renda, o que impede que saiam desse círculo vicioso. Mesmo que o desemprego esteja em níveis historicamente baixos, linhas caras, como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal, consomem parcela cada vez maior dos rendimentos.

Em vez de incentivar mais prudência, o governo fez o oposto e estimulou a população a se endividar ainda mais. Além de anunciar a renegociação de dívidas de estudantes, agricultores familiares e micro e pequenas empresas, o Executivo lançou linhas para aquisição de caminhões, veículos e motocicletas. A mais recente iniciativa do Desenrola contemplou trabalhadores formais, informais e até quem estava com as contas em dia ou com atrasos inferiores a 90 dias.

Entre as empresas, a situação não é melhor. O pagamento de juros consumiu 45% da geração de caixa das 40 maiores varejistas do País no ano passado, o que explica tantas companhias tradicionais terem recorrido a reestruturações e recuperações judiciais e extrajudiciais. É demais para qualquer setor, especialmente para quem atua em um ambiente competitivo e de margens bastante apertadas.

Até mesmo o agronegócio, que historicamente tem acesso a taxas mais benevolentes em razão do Plano Safra, tem registrado aumento na inadimplência. Custos de insumos essenciais como diesel, defensivos, fertilizantes e fretes marítimos subiram consideravelmente, e parte do setor ainda padece de perdas ocasionadas por problemas climáticos, sobretudo no Rio Grande do Sul.

É difícil vislumbrar uma reversão desse quadro no curto prazo. Ajudas pontuais podem até dar algum fôlego aos endividados, mas não resolvem questões estruturais que têm exigido que os juros fiquem em patamares acima de dois dígitos há tanto tempo. Foi assim em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, e tem sido assim neste ano em que o presidente tentará a reeleição. Nada indica que será diferente caso seja eleito.

É o déficit no Orçamento que eleva a dívida pública e o custo para financiá-la, mas o governo Lula prefere culpar o Banco Central em vez de assumir sua responsabilidade por colocar as contas em dia. É papel do Executivo criar condições para que os juros sejam reduzidos, e não simplesmente praguejar contra o mercado financeiro como se não dependesse desse mercado para rolar sua dívida. (Coluna de opinião do portal Estadão)

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