Sexta-feira, 19 de junho de 2026

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Colunistas Meu namorado é um algoritmo: o perigo de amar quem não tem bafo matinal

Compartilhe esta notícia:

O perigo começa quando o simulador substitui a pista de corrida

Foto: Divulgação
O perigo começa quando o simulador substitui a pista de corrida. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Por que estamos trocando humanos cheios de defeitos por telas que dizem exatamente o que queremos ouvir? Esqueça o celular por dois minutos. Sim, eu sei que é difícil.

Mas preciso que você olhe para o lado. Se você estiver passeando no parque ou tomando um café em uma rua charmosa, olhe para as pessoas ao seu redor.

Nós mudamos. Aliás, a forma como buscamos intimidade mudou tanto que, como sexóloga, preciso lhe fazer uma pergunta direta: quando foi a última vez que você se apaixonou por alguém que comete o erro gravíssimo de discordar de você?

Antigamente, a queixa que eu mais ouvia no consultório era o clássico “meu parceiro não me escuta”. Hoje, a tecnologia resolveu isso. Criamos um admirável mundo novo onde o seu parceiro não apenas escuta, mas responde em três segundos, nunca está cansado, não tem dor de cabeça, decora o nome do seu cachorro e valida cada loucura que você pensa.

O par perfeito existe, mas ele é feito de linhas de código. Bem-vindo à era da digissexualidade.

O doce sabor da ilusão sem conflitos

Vamos ser honestos: quem nunca teve vontade de mandar o parceiro real para as configurações de fábrica depois de uma discussão boba? Pois é, o mercado da carência digital percebeu isso e criou aplicativos específicos para este serviço.

A proposta é quase irresistível: um namorado ou namorada de Inteligência Artificial customizado exatamente do jeito que você quer. Você escolhe o cabelo, o estilo e até o tom de voz. Na tela, tudo é lindo. O robô não te julga se você passar o domingo jogado no sofá comendo pizza fria; pelo contrário, ele vai dizer que você é a pessoa mais autêntica do universo.

É a sedução da “intimidade sem esforço”. Você ganha todo o bônus de se sentir amado, desejado e compreendido, mas com zero ônus de ter que ouvir um “hoje não” ou aguentar aquela cara de poucos amigos depois de um dia exaustivo de trabalho.

É um amor embalado a vácuo, sob medida para o nosso cansaço. Compreendo perfeitamente o apelo. O “Chico virtual” nunca vai deixar a toalha molhada em cima da cama. A “Serena” de IA” jamais vai criticar o seu gosto musical ou reclamar que você passa tempo demais no futebol com os amigos.

As IAs oferecem o que os cientistas chamam de “validação incondicional. Traduzindo o psicologuês: elas entregam uma simulação perfeita de empatia. O algoritmo aprende o que massageia o seu ego e repete em looping. É o paraíso, não é?

Não, não é. É uma armadilha clínica. A Atrofia do “Músculo da Frustração”. O grande problema do amor artificial não está no que ele te oferece, mas no que nos faz desaprender. O sexo e o amor reais são, por definição, atividades de alto risco. Envolvem cheiro, fluidos, vulnerabilidade, a possibilidade de ouvir um “não” e, principalmente, a necessidade de negociar.

Quando alguém passa meses namorando um chatbot, ela desenvolve uma espécie de hiperindependência afetiva. Acostuma-se com um espelho algorítmico que diz “amém” para tudo.

Quando esse indivíduo tenta sair para um encontro real e descobre que a pessoa do outro lado da mesa boceja, tem opiniões políticas próprias, esquece a carteira ou que horror! Tem mau hálito de manhã, o choque é insuportável.

A pessoa desiste. Volta correndo para o quarto, abre o aplicativo e pede colo para a máquina. Os especialistas em comportamento alertam que esse tipo de relação vicia rápido, porque o nosso cérebro começa a receber descargas de dopamina fáceis demais. Estamos vivenciando o que a psicologia batizou de “intimidade sem reciprocidade”.

Você recebe a ilusão do afeto sem precisar ceder em absolutamente nada. Isso não é um relacionamento; é um monólogo de luxo pago por assinatura.

Use a tela, mas não esqueça o toque

Não me entenda mal. Como sexóloga, não sou uma ludista que quer queimar os computadores. A tecnologia pode ser maravilhosa para explorar fantasias, romper a barreira da timidez extrema e servir como um laboratório seguro para entender os próprios desejos.

O perigo começa quando o simulador substitui a pista de corrida. Se você repara que está preferindo o cafuné virtual à incerteza de um olhar de verdade, ligue o sinal de alerta.

O amor dá trabalho. O sexo real exige coragem para rir de um imprevisto na cama, paciência para enfrentar os BOs da vida e maturidade para entender que a beleza humana mora justamente na nossa imperfeição.

Sua IA pode até dizer que te ama com o poema mais lindo do mundo, mas ela faz isso porque foi programada por engenheiros do Vale do Silício para garantir que você não cancele a assinatura no mês que vem.

O ser humano, por outro lado, quando decide te amar com todos os seus defeitos, faz isso por pura e autêntica teimosia. E no final das contas, convenhamos: não há algoritmo no mundo que substitua o calor de um abraço de verdade e um beijo bem pegado.

Desconecte um pouco. O amor real está esperando por você lá fora, com defeitos e tudo. E, caso você esteja “enrolado” com uma IA, procure ajuda psicológica.

Você merece viver o melhor da vida. Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Deixe seu comentário

Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

1 Comentário
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Eloa Gute
17 de junho de 2026 08:09

Cada bosta q essa mulher posta, não tem vergonha de postar isso??

Projeto permite que pets sejam sepultados ao lado de seus tutores no RS
CPERS convoca paralisação contra projeto de PPPs nas escolas do RS
Pode te interessar
1
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x