Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 24 de janeiro de 2026
Em 29 de dezembro de 2014, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu uma mensagem em seu celular. “Diga aí, Excelência!! Podemos tomar um café?”, escreveu o então secretário-executivo da Previdência Social Carlos Gabas. “Estou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Se quiser, passe aqui. Abs”, respondeu o magistrado. Pouco tempo depois, os dois amigos se encontraram. Ao sair da conversa, Gabas disse para o então prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), atual ministro do Trabalho: “Tudo certo. Pede para protocolar o pedido de reconsideração”.
No dia seguinte, às 16h14, a defesa do então prefeito interino Elvis Leonardo Cezar (PSDB), de Santana do Parnaíba (SP), pediu a Toffoli para revisar a sua decisão que o impediu de assumir o comando do município, pois havia sido acusado de trocar votos por presentes de natal. Desesperado, Elvis recorreu à ajuda de Marinho e Gabas para dar uma “atenção especial no caso”. O café com o integrante da Corte surtiu efeito: Toffoli voltou atrás em seu entendimento e devolveu a Elvis o seu mandato.
Essas mensagens, analisadas pela Polícia Federal, fazem parte do material encontrado no celular de Gabas durante a Operação Custo Brasil. A investigação apurava um suposto pagamento de cerca de R$ 100 milhões em propina referente a contratos de prestação de serviços de informática a pessoas ligadas ao Ministério do Planejamento entre 2010 e 2015.
Diante desses diálogos, em 2016, integrantes do Ministério Público Federal de São Paulo resolveram pedir à Procuradoria-Geral da República a suspeição de Toffoli, sob a justificativa de que Gabas, um dos alvos do inquérito, e o magistrado nutriam uma relação íntima de amizade.
O caso nunca foi adiante. Todos os envolvidos no episódio negaram qualquer irregularidade. A Segunda Turma do STF, da qual Toffoli era integrante, anulou um braço importante da Operação Custo Brasil. O ministro do STF, apoiado por seus colegas Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, votou para anular as provas coletadas durante uma busca no apartamento da então senadora Gleisi Hoffmann.
A medida tinha como alvo o ex-ministro da Previdência Paulo Bernardo, que era marido da parlamentar. A única posição divergente no colegiado foi de Edson Fachin. Com isso, Toffoli não só deixou de ser alvo de um pedido de suspeição como tirou da mira da Polícia Federal integrantes do PT com os quais costumava se relacionar.
Uma década depois, Toffoli volta a lidar com uma névoa de suspeição. Um resort que já pertenceu a dois irmãos do ministro do STF recebeu recursos de um fundo de investimentos ligado à gestora Reag e ao empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, investigados no escândalo do Master — processo que está sob os cuidados do magistrado.
Toffoli não consta como sócio do empreendimento Tayayá, localizado à beira de uma represa em Ribeirão Claro, no Paraná, mas é um frequentador habitual do espaço luxuoso. Um levantamento feito pelo jornal O Globo aponta que foram pagos com dinheiro público quase meio de milhão de reais em diárias de seguranças para STF em 128 dias de fim de semana, feriado e recesso em região de resort frequentado pelo integrante da Corte.
A presença do magistrado era tão constante no local que recebeu até o título de cidadão honorário do município paranaense por ter promovido o “desenvolvimento turístico”.
Ele também fazia as vezes de anfitrião, conforme mostrou um vídeo publicado pelo Metrópoles. Na gravação, Toffoli aparece recebendo o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Luiz Pastore, do grupo metalúrgico Ibrame e que viajou com o magistrado para a final da Libertadores, junto com um advogado de um diretor do Master.
As conexões entre Toffoli, o resort e o caso Master levaram a oposição a fazer pedidos de suspeição e investigação do magistrado. Três deles foram arquivados pelo procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Os ministros Edson Fachin, presidente do STF, e Gilmar Mendes, decano da Corte, defenderam publicamente o seu colega, que vinha cobrando respaldo dos seus pares.
Em geral, um juiz é considerado conflitado para atuar num caso quando tem, por exemplo, relação íntima de amizade com um dos investigados do inquérito que está sob a sua relatoria. Além disso, não pode exercer atividade empresarial.
Nos bastidores, Toffoli nega aos seus colegas do STF que tenha conflitos com o caso Master. O ministro tem se mostrado inflexível quanto à possibilidade de deixar a relatoria da investigação, que poderia ser devolvida para a primeira instância, conforme defendem alguns membros da Corte. O magistrado, porém, diz que se isso ocorrer abrirá um precedente incontornável: outros colegas poderão ser pressionados a deixar casos mais rumorosos. As informações são do jornal O Globo.
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