Terça-feira, 13 de maio de 2025
Por Redação O Sul | 9 de novembro de 2022
Dez anos após iniciar operações no País com importação de caminhões e planos de ter fábrica local, a Foton Aumark do Brasil (FAB) se prepara para ir à Justiça contra a marca chinesa por rompimento unilateral de contrato. A empresa foi criada pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, e pretende buscar compensação por investimentos feitos e parcelas do lucro futuro que teria na associação com a Foton Beiqi, uma das maiores fabricantes de veículos pesados da China.
Em princípio, o processo que deve ser encaminhado no início do próximo ano deve pedir indenização de cerca de R$ 600 milhões. É mais uma briga envolvendo parcerias entre empresas brasileiras e multinacionais por eventuais descumprimentos de contratos. Casos dessa natureza já envolveram a Caoa e a francesa Renault – e depois a coreana Hyundai –, e o grupo SHC, do empresário brasileiro Sérgio Habib e a Citroën, hoje pertencente ao grupo Stellantis.
A FAB informa que, até agora, importou cerca de 3 mil caminhões e chegou a montar entre 600 e 800 veículos em uma linha alugada na Agrale (RS). O projeto de construir fábrica própria, inicialmente prevista para 2016, não foi para a frente, apesar da aquisição de parte de uma área antes destinada à Ford, em Guaíba, também no Rio Grande do Sul.
O advogado Flávio Zambom, do escritório Flávio Zambom Advocacia, afirma que, ao longo dos anos, a Foton Beiqi não cumpriu vários acordos estabelecidos em contrato e passou a atrasar entregas de veículos e peças ou não entregar os volumes solicitados. “Antes os prazos eram de mais ou menos quatro meses do pedido até a chegada dos caminhões e passou para oito meses, gerando problemas para a FAB, para as revendas e para o consumidor”, diz.
Todos os gastos com homologações de produtos, nacionalização, compra da área e início de terraplenagem foram bancados pelos parceiros brasileiros. Com a crise econômica a partir de 2016, falta de produtos e sem apoio financeiro, no fim de 2018 o grupo entrou em recuperação judicial. Na época, tinha dívidas de R$ 120 milhões com bancos privados e fornecedores e conseguiu pagar até agora R$ 20 milhões.
“Informamos a China sobre a RJ e não houve nenhuma decisão de interromper a cooperação”, informa Mendonça de Barros, presidente do conselho da Foton. Segundo ele, os pedidos de caminhões e peças foram praticamente suspensos. Ele conta que, neste ano, foi surpreendido quando soube, pelos concessionários, que a representante da fabricante no País, a Foton Motors Brasil (FMB) passou a importar os veículos e entregar diretamente aos concessionários, sem a participação da FAB.
Segundo Mendonça de Barros, essa empresa está tocando a operação usando a rede de revendas que a FAB criou, assim como sua estrutura de financiamento, se aproveitando de um mercado em crescimento. Também mudou o porto de desembarque dos veículos do Rio Grande do Sul para Santa Catarina. “Não nos cabe agora outra saída a não ser buscar compensações estabelecidas na lei brasileira.”
Paulo Mathias, presidente de Abrafoton, que reúne as concessionárias da Foton, diz que houve um entendimento entre a FAB e a FMB para que, enquanto elas buscam uma solução para a parceria, a importação seria feita de forma direta, “para evitar que a rede sucumbisse sem produtos para comercializar”.
Em março, os concessionários receberam 240 caminhões, ainda entregues via FAB. Neste mês e no próximo chega mais um lote de 400 veículos, desta vez importado e repassado a eles diretamente pela FMB. “Agora os pedidos estão chegando sem problemas de interrupção”, afirma Mathias. Segundo ele, antes eram feitos cerca de 230 pedidos de caminhões ao mês, e chegavam em média 30 a 40.