Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Por Vera Armando | 19 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O que aconteceu em São Gabriel, no ano passado, quando um pai arremessou o filho de uma ponte, e o que vimos recentemente em Itumbiara, no interior de Goiás, não são episódios isolados. São feridas abertas que rasgam a consciência de qualquer sociedade que ainda se reconheça humana.
Não existe vocabulário capaz de classificar o que significa um pai decidir matar os próprios filhos para atingir a mãe. Quando aquele que deveria proteger se transforma na ameaça, a lógica da vida é violentamente invertida.
Em São Gabriel, o assassino teve a frieza de chamar o ato de “uma loucurinha”. A frase quase infantil, revela algo aterrador: a banalização absoluta da violência. Como uma vida pode ser reduzida a isso?
Em Itumbiara, o horror veio acompanhado de uma contradição que revolta. Horas antes do crime, o pai escreveu que amava os filhos, pediu que Deus os abençoasse e gravou um vídeo ao lado das crianças. A pergunta que atravessa qualquer pessoa minimamente sensível é inevitável: que tipo de amor é esse que abraça antes de destruir?
É preciso dizer sem rodeios: não existe traição, não existe separação, não existe dor emocional que autorize um ato dessa dimensão. Nada. Absolutamente nada. Quando um homem fere os próprios filhos para atingir a mãe, estamos diante da expressão mais extrema da violência vicária, aquela em que a criança vira instrumento de vingança.
Essas tragédias quase nunca nascem do nada. Antes do ato final, costumam existir sinais. Ciúme tratado como prova de amor. Discursos de posse travestidos de proteção. São alertas claros, mas ainda frequentemente ignorados.
Nenhum sofrimento pessoal dá a alguém o direito de decretar a morte de inocentes. Quem não suporta a própria dor precisa buscar ajuda, jamais transformar crianças em vítimas de sua incapacidade emocional.
Filhos não são propriedade. Não são extensão de um conflito conjugal. Não são território de disputa. Quando um homem mata uma criança para ferir a mãe, o que se revela não é desespero. É crueldade. Não é amor distorcido. É violência em sua forma mais covarde.
Amor não controla. Amor não ameaça. Amor não pune. Onde existe medo, não existe amor. Onde existe vingança, nunca houve cuidado.
Reconhecer o perigo enquanto ele ainda aparece em palavras, comportamentos e sinais é uma responsabilidade coletiva.
Quando falhamos em proteger os mais indefesos, não é apenas uma família que é destruída. É a própria ideia de humanidade que desaba diante de nós.

* Vera Armando – jornalista e vereadora de Porto Alegre (@veraarmando.rs)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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