Segunda-feira, 15 de junho de 2026

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Colunistas NÃO SE VENDE E NÃO SE TROCA

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Fato aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Desde que homens como De Gasperi, Adenauer, Schumann, há quase 70 anos, ainda em ruínas muitas cidades europeias, tanto de vencedores (se é que os há em uma guerra) como sobretudo dos vencidos, temerosos de que o futuro fosse reedição do passado – a 2ª. Guerra Mundial fora uma quase continuidade da mal acabada e lastimavelmente iniciada HECATOMBE de 14-18) cozeram, no forno quente da política, com temperos tão suaves quão apimentados, de apoio internacional, o prato forte da integração. Entendeu-se que o futuro poderia – e deveria – ser capaz de formatar uma História que, fruto do idealismo esperançoso, combinado com a lição impiedosa da tragédia do conflito bélico, colocar-se ante o dilema da sobrevivência, isto é, menos fronteiras armadas e mais entrepostos aproximando os próximos que viviam distantes.

O povo, ferido pela agressão irracional da guerra, ainda fumegantes as armas, não acreditava num armistício que, no ontem recente, já significara mero sobrestamento de um confronto para fazer-se a preparação com vistas a uma guerra subsequente, depois da Franco Prussiana, veio a de 1914 – 18: morticínio de SEIS MILHÕES de pessoas, censura de opiniões, perseguição de etnias, hostilidade radical à democracia e – sempre que possível – sacrifício de democratas.

Hitler, Mussolini, Hiroito e seus ardorosos vassalos (Franco, na Espanha; Salazar em Portugal, Peron na Argentina etc) e por que não registrar ? Getúlio, enquanto vitoriosa a trinca Berlim, Roma, Tóquio, se fez adepto copista das lições do Eixo, que, em se aproveitando de um momento de credulidade ingênua dos ingleses, de adesão e fuga acovardada de um postiço governo francês, de um inicial “não é comigo” dos Estados Unidos e de uma postura soviética não definida – Stalin era tão, ou mais, despótico quanto os fascistas e nazistas ocidentais – deram a impressão ameaçadora de que fariam, do mundo conhecido uma grande colônia, e de seus habitantes , submissos subcidadãos.

Não é hora de recapitular guerras (já as temos contínuas, com modelagens contemporâneas) possivelmente até mais deletérias de que as de antes. Traiçoeiras, porque podem estar na imediatidade de um arsenal sortido de armamentos tecnológicos, em toda parte, a qualquer hora.

Vamos falar de paz. Foi o que animou aqueles grandes líderes europeus (todos democratas-cristãos), ante o desafio das feridas recentes e não cicatrizadas dos combates fratricidas. No final de 40, início de cinquenta, foram eles que deram energia para fazer brilhar o facho comunitário inicial, formalizado em torno do Tratado do Carvão e do Aço, até então ponto de divergência constante – pleno de argumentos ameaçadores – entre franceses e alemães. Como o tempo é o senhor da razão, empenharam-se e deram conteúdo a um avanço parceiro do “grupo dos seis”, predispondo-se (talvez melhor dizer: atrevendo-se) a regular o que se presumia ainda misterioso – uma quase crendice tecnológica – elaborando e aprovando o Tratado do EURATOM.

A Europa não olhava pelo retrovisor. Propunha-se enfrentar, numa surpreendente precocidade, a missão inovadora de escrever o roteiro dos novos tempos. E mais, muito mais. Fe-lo pela estrada, que se planejou e construiu, no seu leito principal, com um equipamento, na época, valioso e transformador: a integração. Foi com ela que se logrou soldar a parceria dos seis sócios fundadores, firmatários do histórico Tratado de Roma (1952), indiscutivelmente a detalhada certidão de batismo do MCE (Mercado Comum Europeu).

Dela se diria, numa espécie de “prefácio” oficioso do Tratado, que seria o instrumento da construção de um amanhã de início não bem definido e de duração no longo indeterminado. Foi a integração, de quem se disse ser a “planta pacífica” capaz de vicejar nas sociedades democráticas – e só nelas – para fazer com que, as vezes, “mesmo perdendo um pouco menos se pudesse ganhar um pouco mais”, na inspirada frase de Schumann.

E foi assim que os seis pioneiros (Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo) se transformaram, com o tempo e a semeadura da solidariedade em vinte e sete países. E, passo a passo, foram construindo projetos societários, vencendo barreiras, eliminando obstáculos, substituídos por parcerias solidárias.

É uma pena que essa vitamina pacífica – a integração – se veja ameaçada, na velha Inglaterra, por uma maioria mínima, e feita de muitos arrependidos, por isso circunstancial, que viu a árvore e não enxergou a floresta, decidindo, com espírito de cunho isolacionista insular, afastar-se do continente. Tudo indica que, hoje, já seria (passadas as emoções de um nacionalismo quase senil – pelo menos envelhecido) outro o resultado de um novo plebiscito britânico.

O casamento da supranacionalidade mesmo com suas rusgas da íntima convivência, foi (e é) muito mais prazeroso e útil do que o divórcio árido, onde se troca pelo meramente circunstancial, a realidade sólida do estrutural.

A expectativa é de que o passo atrás (isto é, o Brexit vendido ilusoriamente como avanço por festivos ingleses), não contamine isolados grupos diversos e diversificados, ameaçando com slogans coloridos e enganosa aparência de liberação histórica – doentiamente traumatizantes – um projeto passageiro de construção nacional que, antes de mais nada, trouxe para a região integrada – eventualmente, mesmo lutando com problemas de varejos de famílias numerosas – um tempo de paz interna duradoura com a qual a região, no antes, não tivera, na infelicidade de sua solidão, o hábito, mais que isso: o costume de conviver que se fez direito.  E a paz não tem preço. Não se vende nem se troca.

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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