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Mundo Narcisismo é a chave para decifrar Donald Trump

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Biógrafo afirma que Trump levará uma “cultura narcísica” na bagagem. (Crédito: Reprodução)

Se a eleição fosse hoje, Donald Trump poderia ter mais votos do que Hillary Clinton: pela primeira vez, o pré-candidato republicano à presidência dos Estados Unidos superou a rival democrata na média de várias pesquisas de intenção de voto: 43,4% contra 43,2%. Para vencer a eleição nos EUA, porém, não basta ter a maioria dos votos no país. É preciso vencer nos Estados mais populosos e, assim, obter maioria no Colégio Eleitoral – um tabuleiro de xadrez no qual, segundo as pesquisas estaduais disponíveis, Trump não prevalece por ora.

Mas, se essa reversão ocorrer e o empresário republicano se mudar para a Casa Branca, ele levará uma “cultura narcísica” na bagagem. Ela é a chave para decifrar o magnata, diz seu biógrafo Michael D’Antonio. “Facebook, Twitter, Instagram e até as milhões de selfies diárias são expressões do tipo de autopromoção que Trump praticou, em nome do lucro, por toda sua vida.” D’Antonio lançou em 2015 “Never Enough: Donald Trump and the Pursuit of Sucess” (“Nunca o Bastante: Trump e a Busca pelo Sucesso”). Os dois, que não se conheciam, tiveram cinco reuniões. Ao concordar com a produção do livro, Trump alertou, segundo relatou o biógrafo: “Provavelmente será um livro ruim, e eu me arrependerei. Poderia processá-lo se for ruim, mas não vou me incomodar, pois não vai vender”. Confira trechos da entrevista.

Por que Trump?

Michael D’Antonio – Meu editor pediu. Concordei sob a condição de analisá-lo como símbolo da nossa era narcisista. Ele foi parte da “cultura selfie” antes de haver selfie. Seus livros, escritos por autores profissionais, são canais de autopromoção. Quando se recuperara de baques em seus negócios nos anos 1990, deu uma grande festa. Pôs luvas, vestiu um robe de boxeador e fez uma entrada triunfal, ao som do tema de “Rocky” e de um poema sobre retornar após a derrota.

O que há de revelador em um homem já tão exposto?

D’Antonio – Trump é uma pessoa extremamente carente, que precisa da aprovação da mídia e do público para ser feliz. Há anos, começa o dia lendo publicações que o citam. O hábito reforça a ideia de que ele importa para o mundo. Ele quer sucesso, mas é a fama o que mais deseja.

Ele se recusa a divulgar seu Imposto de Renda antes das eleições. Haverá surpresas?

D’Antonio – Suspeito que sua declaração mostraria que a fortuna que diz ter [10 bilhões de dólares] não é tudo isso, e sua filantropia decepcionaria. E deve pagar menos imposto do que a maioria dos americanos.

Como foi sua relação com ele?

D’Antonio – A gente se deu bem até ele perceber que não poderia me controlar. Falei com uma pessoa que ele não gostava, Harry Hurt 3º, que escreveu um livro citando o escândalo sexual que encerrou um dos casamentos de Trump. Aí ele virou a criança que diz “se você é amigo dele, não é meu”.

Como Trump reagiu ao livro?

D’Antonio – Ele não gostou do título e mandou um advogado ligar. Não passou de intimidação.

O senhor diz que a ascensão de Trump era inevitável. E, ainda assim, quase ninguém previu.

D’Antonio – Quando questionou se Barack Obama havia nascido nos EUA [em 2011], antecipou sua campanha presidencial. Pedia a quem odiasse Obama que se identificasse com ele.

Trump sempre teve problemas com imigrantes e muçulmanos ou os recrimina por estratégia política?

D’Antonio – Ele nem sempre falou tão mal deles. Mas sempre viu outros países como inimigos dos Estados Unidos. No passado, criticou nações petroleiras, dizendo que nos enganavam. Agora, tacha muçulmanos e imigrantes de “os outros”, usando-os para parecer durão.

Qual a influência de Fred Trump sobre o filho?

D’Antonio – Fred o moldou ao exigir sucesso em tudo a qualquer preço – e depois o enviando à escola militar como punição. Essa rejeição foi terrível para Donald. Virou o “valentão da turma” pelo resto da vida.

Votará em seu biografado?

D’Antonio – Não poderia. Ele é muito errático, emocional e sem consideração pelos outros.

Qual o maior mito sobre Trump?

D’Antonio – O sucesso empresarial. Trump teve muitos fracassos nos negócios. Poderia ter sido tão rico como é hoje apenas investindo a herança do pai em ações e jogando golfe. (Folhapress)

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