Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020

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Mundo Negro se passa por branco na internet para descobrir o que os racistas não falam na sua cara

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Theo Wilson, ator negro que se passou por supremacista na internet. (Foto: Reprodução)

Esta é a história de Theo Wilson, 36 anos, ator e poeta norte-americano que ganhou notoriedade na internet em 2015 após publicar um vídeo questionando se os negros deveriam receber ressarcimento por causa da escravidão. Sua argumentação, com dez minutos de fala enfática e ritmada (em inglês), era baseada em um artigo de Ta-Nehisi Coates, jornalista e escritor da série em quadrinhos “Pantera Negra”.

Um resumo do que veio a seguir: Wilson recebeu uma enxurrada de comentários ofensivos, bateu boca com seus agressores e ele, negro, decidiu passar-se na internet por um homem branco e racista. Queria entender como pensavam. Furou a bolha que separa nichos na internet, misturou-se ao grupo contrário à sua raça e voltou para contar o que viu do lado de lá.

“Entendi que existem muito mais racistas no mundo do que podemos imaginar: você não sabe quem eles são e quão próximos eles estão. São pessoas que podem até parecer legais na sua frente, mas que dirão coisas horríveis pelas suas costas”, disse ele.

Três anos após ser publicado, o vídeo soma 23.730 visualizações – número que qualquer postagem do youtuber Whindersson Nunes alcança em poucas horas.

Para Wilson, no entanto, foi um marco que deu origem a descobertas e transformou sua vida. “Nunca havia tido tanta exposição antes, com nenhum dos meus vídeos. E as pessoas começaram a escrever coisas [racistas] que provavelmente não diriam na minha cara, pois era fácil se esconder atrás do anonimato da internet. Eram agressivos e cruéis”, afirmou em entrevista via Skype.

Uma viagem à bolha que não é sua

Nos bate-bocas, conta, passou a interessar-se cada vez mais pelos argumentos de seus opositores: considerava que nem todos eram ignorantes, mas que muitos estavam mal-informados sobre a história da escravidão. Quando o tom da conversa esquentava, era comum o debate descambar para xingamentos e ofensas racistas. “De onde esses caras tiravam esses argumentos? Será que existe algum tipo de universo alternativo, com fatos alternativos, que não estava sabendo?”, ironiza.

Decidiu então investigar, em um experimento realizado por conta própria ainda em 2015. A princípio, tentou burlar o algoritmo do Facebook, curtindo conteúdo contrário àquilo que pensava. Funcionou em partes, mas ele queria mais. Criou então um perfil falso no YouTube com o pseudônimo Lucius25 e foto do personagem John Carter, com o qual passou comentar postagens supremacistas e interagir com os fãs dessas páginas.

Tudo de maneira afirmativa, reforçando o racismo, criticando ativistas negros e usando argumentos com os quais já o haviam atacado ao falar de sua raça e sua cor. Isso no auge do movimento Black Lives Matter (“as vidas dos negros importam”, em tradução livre), iniciado após as mortes de negros que não portavam armas por policiais nos EUA. “Em uma das conversas, alguém questionou como a polícia poderia distinguir entre negros bons e ruins, se tantos agiam como macacos. Foi muito difícil, mas, como eu estava nessa outra persona, concordei para ver quão longe isso iria.”

Na época, ele tinha um emprego na área financeira “para pagar as contas” e usava parte do expediente nessas interações – daí a escolha do YouTube, plataforma liberada em seu antigo trabalho.

As conversas deixaram claro para Wilson a existência do que ele chama de “câmaras de eco digitais”, ambientes onde se reforça e valida aquilo que as pessoas já pensam. Os supremacistas, até então mantidos fora da bolha do ator (habitada por pessoas e fontes mais liberais), mostraram-se bastante engajados e atuantes em suas próprias bolhas.

Wilson afirma que, ao conseguir se infiltrar, viu muitos discursos com dados descontextualizados, trechos desfragmentados da história e medo do “genocídio branco”, causado pela miscigenação. “Eles sabem que seu racismo é moralmente errado, mas continuam porque pensam estar fazendo um bem maior, que é proteger a raça branca. Se achassem que estavam certos, não se esconderiam atrás de perfis virtuais falsos, da mesma forma como os membros do [grupo extremista] Ku Klux Klan faziam ao usar capuzes.

Após cerca de oito meses, Wilson desistiu. “Comecei a ouvir o mesmo lixo de novo e de novo, os mesmos argumentos ignorantes de novo e de novo, então decidi parar. Porque não estava aprendendo nada novo, apenas envenenando meus pensamentos com ódio”, conta ele, que diz ter feito isso tudo sem pretensões de tornar a experiência pública. “Era algo que acontecia no pano de fundo de minha vida. Eu tinha emprego, vida social, nunca achei que isso se tornaria algo grande.”

“Concluí a experiência achando que não há como vencer conflitos de raça. Porque sou odiado por aquilo que não posso evitar ser? Não interessa o que fazemos, sempre haverá muita gente que nos odeia. Como podem ficar tão bravos se apenas sobrevivemos ao que nos fizeram passar?”, disse.

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