Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 27 de maio de 2021
O Movimento 5 Estrelas (M5S), um experimento político que surgiu dos interesses de uma empresa de comunicação e dos impulsos contra a elite de um comediante (Beppe Grillo), iniciou sua verdadeira ascensão eleitoral cinco anos atrás. Em junho de 2016, estava perto de eleger o prefeito da cidade de Roma no segundo turno. Uma grande notícia, sem dúvida. Mas sua dirigente, Paola Taverna, resumiu numa frase lapidar o que a capital da Itália representa para os partidos: “Há um complô para ganharmos as eleições. Assim prejudicarão a nossa imagem”.
Roma é um moedor de políticos. Walter Veltroni foi o último grande prefeito a ter, de 2001 a 2008, uma cidade que ainda preservava seu esplendor internacional paralelamente ao seu eterno interesse turístico. Desde então, todos os seus sucessores, como o pós-fascista Gianni Alemanno e o social-democrata Ignazio Marino, compartilharam escândalos, processos judiciais e a gestão duvidosa de uma cidade que, segundo um estudo de 2020 da Comissão Europeia, é a segunda pior capital da União Europeia em termos de qualidade de vida, atrás apenas de Atenas.
Virginia Raggi, finalmente eleita em 2016 pelo M5S e atual prefeita, foi mais um elo dessa decadência, na avaliação dos próprios cidadãos. Mas o desinteresse dos demais partidos, ainda sem candidatos ou com apostas de segundo escalão, a coloca como a favorita para as eleições de outubro, com 26,9% na última pesquisa do La Repubblica.
Raggi, que se propôs a superar os problemas estruturais da cidade, não atingiu seus objetivos. Roma continua a ter graves deficiências nos transportes, na limpeza urbana e na gestão de empresas públicas. Seu partido nem tinha certeza de que ela poderia ser candidata novamente, mas não havia muitas alternativas, e ela fez questão de se reapresentar num cenário de pouca competição.
Roma, uma cidade quase do tamanho de Londres, mas com apenas três milhões de habitantes – o que implica uma arrecadação insuficiente de impostos municipais para gerir um espaço dessas dimensões – assusta qualquer um. Administrar sua infraestrutura, suas empresas públicas desproporcionais – 8.000 funcionários só na gestão do lixo – e seus 440 quilômetros quadrados de áreas verdes não é fácil. E os grandes partidos, quase sem nenhum novo quadro dirigente, não encontraram voluntários dispostos a concorrer ao cargo que será decidido nas urnas em outubro.
Raggi tem sido o saco de pancadas de todos os partidos nos últimos cinco anos. Foi apresentada pelo M5S como um símbolo de regeneração política e eleita com quase 70% dos votos, mas não conseguiu dinamizar os indomáveis serviços públicos romanos – a funerária AMA, por exemplo, acumulou recentemente um atraso de 35 dias para cremar corpos – e foi acusada de falso testemunho e abuso de poder (acabou absolvida).
Em Roma é fácil ver ônibus em chamas, enormes crateras que se abrem na rua e engolem carros como se fossem biscoitos (aconteceu nesta terça-feira no bairro de Torpignattara) e javalis farejando o lixo. Tudo, muitas vezes também de forma injusta, sempre acaba sendo culpa da prefeita, alvo principal dos memes nas redes sociais.
Francesco Rutelli, ex-prefeito de Roma, cuja gestão (1993-2001) deixou boa lembrança para os romanos, acredita que essa indecisão se deve em parte ao fato de que “os partidos perderam o vínculo com as classes populares mais organizadas”.
“Há também uma perda de confiança na competição, típica da política. E um problema de reduzir tudo à ideia de um único homem no comando, que tudo esteja relacionado à personalidade. No passado, havia líderes prontos, mas eles também eram muito capazes de construir equipes. Eles eram acompanhados por organizações grandes e inteligentes”, diz.
A formação em que militou até 2009, o Partido Democrático (PD), é um claro exemplo dessa mudança. As informações são do jornal O Globo.
Os comentários estão desativados.