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Mundo Nunca antes as mulheres tiveram tanto protagonismo no Vaticano

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Cardeal confessou ter se comportado de forma "reprovável" com uma menina de 14 anos quando era pároco. (Foto: Reprodução)

Os números e os mais recentes atos do papa Francisco mostram um novo cenário: nunca antes as mulheres tiveram tanto protagonismo no Vaticano. Mas um arcaísmo persiste intacto no catolicismo, seja na cúpula da igreja em Roma, seja nas paróquias espalhadas pelo mundo: muitas são as mulheres, geralmente irmãs consagradas, que servem padres, bispos e cardeais como empregadas domésticas, quase sempre sem nenhum direito reconhecido.

A discussão sobre a igualdade de gêneros ganhou impulso no pontificado do argentino Jorge Mario Bergoglio, mas, como reconhecem as mulheres, muito ainda precisa ser reformado num ambiente comparável a uma monarquia absolutista cujo poder predominante é masculino e clerical. tualmente as mulheres correspondem a 21% dos empregados da Cidade do Vaticano. São mais de 950, entre religiosas e laicas.

O primeiro contrato de trabalho de uma mulher na Santa Sé data de 1915 —de uma costureira que atuava no mobiliário do papa Bento 15. Hoje muitas são as mulheres em cargos de direção em diferentes áreas, com predominância nos setores de comunicação, saúde e do patrimônio artístico.

O museu do Vaticano, que tem uma das coleções de arte mais valiosas do mundo e é um dos mais visitados da Europa, é dirigido desde 2017 pela italiana Barbara Jatta, que comentou, quando anunciada, que esperava ter sido escolhida “não por ser mulher, mas por suas qualidades”.

A última nomeação feminina, anunciada em meados de janeiro, foi da advogada italiana Francesca Di Giovanni, que cuidará das relações multilaterais da Secretaria de Estado da Santa Sé. É a primeira vez que uma mulher tem um cargo de direção no órgão que cuida da diplomacia vaticana.

A brasileira Cristiane Murray é outra recém-promovida no pontificado de Francisco. Desde julho, a jornalista é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé, o que significa também ser vice-porta-voz do Santo Padre. “Somos ainda poucas mulheres a desfrutar de maior proximidade ao papa. Não vejo entraves e me sinto encorajada por ele a me sentir à vontade, a desempenhar meu trabalho com seriedade e a não renunciar às especificidades de ser mulher”, comentou.

Carioca e formada em administração de empresas, Murray trabalha na instituição desde 1995, atuando antes no serviço brasileiro da Rádio Vaticano. Apesar dos destaques recentes, há também críticas de dentro da própria igreja. No final de dezembro, o jornal L’Osservatore Romano, veículo oficial da igreja, publicou um artigo assinado por três sócias do grupo Mulheres no Vaticano, formado por funcionárias que trabalham na Cidade do Vaticano.

No texto, intitulado “Romper o muro da desigualdade”, as autoras discorrem sobre o “deságio profissional” feminino: “Como em tantas sociedades, também no Vaticano as mulheres são às vezes vistas —por homens, mas também por outras mulheres— como pessoas de menor valor intelectual e profissional, sempre disponíveis ao serviço, sempre dóceis aos comandos superiores”.

Em termos de direitos trabalhistas, no entanto, de acordo com a organização, o Vaticano seria o único Estado do mundo onde há equiparação salarial de gênero, além de estabelecer para ambos os sexos (no caso dos laicos) a mesma idade mínima para se aposentar (65 anos). Ainda que reconheçam os avanços, grupos católicos feministas que atuam fora da igreja são críticos quanto ao estado geral das coisas. “O ponto não é ter paridade salarial, o que é importante. Mas seria diferente dar mais responsabilidades e reconhecer que falta a governança delas”, afirma Paola Lazzarini, presidente da associação Mulheres para a Igreja.

Nos sínodos realizados pela Igreja Católica, por exemplo, as mulheres participam, mas não têm direito a voto. O papa Francisco criou anos atrás uma comissão para estudar a possibilidade do diaconato feminino, mas o assunto —até agora sem consenso— não avançou. O jornal L’Osservatore Romano foi palco de um recente embate que expôs a enorme fissura existente na estrutura da igreja em relação às mulheres.

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