Sábado, 29 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 28 de agosto de 2026
Mei Lin Chen tem 73 anos e quase 700 mil seguidores no Instagram. Nascida em Hangzhou, na China, chegou ao Brasil em 1978 e hoje vive em Cotia, na Grande São Paulo, onde cultiva mais de 80 espécies de plantas medicinais. Na rede social, diz ser especialista em medicina chinesa e vende um livro com mais de 55 “remédios naturais milenares”, prometendo soluções para problemas que “a farmácia não resolve”. Mas tem o detalhe: “Vovó Mei” nunca existiu. Foi criada por inteligência artificial (IA).
Não é caso isolado. Em uma tarde, o Pulsa identificou mais de 70 perfis semelhantes, operando em uma espécie de engrenagem global. Há perfis de Brasil, Chipre, EUA, Espanha, Portugal e Irã, que exploram estereótipos de “avós” chinesas, pessoas negras e indígenas, moradores da “roça”, monges budistas e até freiras para divulgar receitas sem comprovação científica. São fórmulas “simples” para condições sérias e complexas, como diabete, hipertensão, colesterol alto e obesidade.
As pessoas por trás dessas contas lucram com a venda de diversos produtos. No Brasil, o foco são os e-books: enquanto Vovó Mei vende o livro digital Diga Adeus aos Sintomas que a Farmácia não Resolve, a Vó Xayomi, apresentada como uma indígena, promete recuperar a saúde em sete dias com um e-book de poucas páginas vendido por R$ 50. Em outros países, há venda de cosméticos e suplementos. “Isso deixa claro que a desinformação se tornou um mercado que lucra às custas da saúde das pessoas”, afirma Nicole Sanchotene, pesquisadora do NetLab, laboratório de pesquisa na área de Estudos de Internet e Redes Sociais da Federal do Rio (UFRJ). Procurada, a Meta, responsável pelo Instagram, se limitou a responder que suas políticas não permitem “desinformação prejudicial sobre saúde”, sem mencionar a atuação dos perfis gerados por IA.
As receitas quase sempre levam ingredientes acessíveis, daqueles que muita gente tem em casa. “As vítimas costumam ser as pessoas mais vulneráveis: aquelas que não têm familiaridade com a tecnologia, pessoas idosas, quem está enfrentando algum problema de saúde ou quem espera há meses por uma consulta”, diz Ana Carolina Monari, do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Estadual de Campinas (Unicamp).
Entre as publicações, há desde recomendações de uso de bicarbonato de sódio nos olhos para tratar catarata até a sugestão de chá de cebola roxa para “baixar o açúcar no sangue” ou de chá de beterraba como uma alternativa “melhor que remédio” para controlar a hipertensão. Tudo sem evidência científica.
A cúrcuma, ou açafrão-daterra, é outro ingrediente recorrente. “Quando usada como tempero, em pequenas quantidades, ela não costuma representar um problema. Mas, em concentrações elevadas ou associada a outras substâncias, como a pimentado-reino, pode trazer riscos”, alerta o hepatologista Raymundo Paraná, da Sociedade Brasileira de Hepatologia.
O problema é que muita gente leva essas recomendações a sério. Nos comentários, é comum encontrar pessoas agradecendo pelas receitas, tirando dúvidas ou pedindo orientações. “Preciso de um remédio para sequela de covid no meu pulmão. Você tem?”, indaga uma seguidora de Vovó Mei.
Também aparecem relatos de pessoas que decidiram seguir as receitas e acabaram enfrentando consequências. Uma delas conta que iniciou um tratamento para o fígado à base de chá de canela, sal, cravo e gengibre, e desenvolveu gastrite hemorrágica. “Eu acabei com meu estômago.”
Para o médico e divulgador científico Carlos Eduardo Viterbo, esses exemplos mostram que a ideia de que “se é natural, faz bem” é uma simplificação arriscada. Tudo depende da dose, da frequência de uso, da forma de consumo e das interações com outras substâncias.
As recomendações não vêm de profissionais de saúde e tampouco têm relação comprovada com conhecimentos “milenares”. Na prática, as pessoas por trás desses perfis usam a imagem e os estereótipos de determinados povos e grupos para ganhar credibilidade e vender produtos. “É apropriação de ancestralidade. Eu diria que é até um preconceito, como se toda pessoa indígena usasse cocar ou como se toda pessoa da China morasse no alto de uma montanha e fosse especialista em medicina chinesa – o que não é uma verdade”, destaca Viterbo.
A semelhança com pessoas reais não é o único artifício. Há padrões específicos que passam despercebidos: o primeiro é justamente esconder a natureza artificial. Dos perfis analisados pelo Pulsa, apenas 2% informam ser figuras fictícias. Na maioria, essas personas recebem nome, idade, origem e uma história de vida cuidadosamente construída para transmitir credibilidade.
Ao acessar o link do livro da “Vó Antônia”, por exemplo, o público encontra a biografia de uma suposta senhora de 62 anos, do interior de Minas, que teria aprendido sobre plantas medicinais “com a própria avó e outras mulheres”. “Há uma tentativa não só de passar um ar de sabedoria, mas um apelo emocional, um desejo de resgatar alguma memória e causar uma sensação de proximidade”, avalia Ana Carolina.
Outra estratégia comum é apresentar as informações como uma suposta “verdade escondida” por médicos, farmácias e a indústria farmacêutica. Não por acaso, frases como “as farmácias não querem que você descubra”, “os médicos escondem essa informação” ou “a indústria não quer que você saiba” aparecem com frequência. Esse discurso, segundo Nicole, se aproxima do conceito de “conspiritualidade”: termo usado na literatura científica para descrever a combinação entre teorias da conspiração e elementos associados à espiritualidade, terapias alternativas e à ideia de um conhecimento ancestral ou secreto que teria sido perdido ou ocultado. Nesse tipo de narrativa, a promessa não é apenas oferecer uma receita ou um tratamento natural. É convencer as pessoas de que existe uma informação que foi escondida e que aquela persona seria responsável por revelar.
“É uma estratégia criada para mobilizar a confiança das pessoas. De um lado, descredibiliza instituições e saberes estabelecidos e, de outro, propõe um novo modelo a ser seguido”, explica Nicole.
Embora os “gurus de IA” chamem a atenção, a desinformação em saúde está longe de ser um fenômeno novo ou isolado. Em 2025, o estudo Desinformação Pode Matar, do NetLab, analisou anúncios sobre saúde publicados nas plataformas da Meta e constatou que 76% continham informações falsas ou enganosas. Já em julho deste ano, a ONG CTRL+Z, que monitora o impacto das plataformas digitais e é dirigida por Daniela Silva, ex-head de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, revelou outra face desse cenário: uma rede de “médicos” criados por inteligência artificial no YouTube. Por meio de vídeos ultrarrealistas, eles prometem curas milagrosas, espalham medo e chegam a desencorajar o uso de alguns medicamentos.
Juntos, esses canais já ultrapassam 70 milhões de visualizações. “Todos nós estamos nos confrontando com uma nova cara da desinformação”, avalia Nicole, ao mencionar os modelos de IA generativa, capazes de simular vozes, criar personagens e produzir conteúdos cada vez mais convincentes. “Se antes era necessário conhecimento técnico, hoje esses conteúdos podem ser criados por qualquer pessoa, em questão de minutos.”
Apesar do volume de conteúdos potencialmente nocivos, essas contas parecem encontrar pouca dificuldade para crescer. Entre os 72 perfis identificados pela reportagem, 74,6% foram criados em 2026. Mesmo tão recentes, acumulam, em média, mais de 55 mil novos seguidores por mês. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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