Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 5 de novembro de 2017
O cenário para a aprovação da reforma da Previdência está difícil, mas o governo deve fazer um esforço para conseguir passar o que for possível das medidas o quanto antes, afirma o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, ex-diretor do Banco Central. Um dos riscos de deixar a reforma para o próximo presidente pode ser um novo rebaixamento do rating soberano do Brasil, disse ele em entrevista ao Estadão/Broadcast. Já a aprovação pode ajudar o Banco Central a reduzir ainda mais a taxa de juros. Mesquita prevê que o PIB (Produto Interno Bruto) do País vai crescer 3% em 2018, puxado pelo consumo. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O senhor acredita que a reforma da Previdência, mesmo que diluída, tem chance de ser aprovada neste governo?
Acho que está difícil. Primeiro, pelo fato de que o tempo está acabando e tem outras pautas que podem ser prioritárias, como a própria pauta do ajuste fiscal de curto prazo, que são as medidas para atingir a meta fiscal (de déficit de 159 bilhões de reais) em 2018. Há outras pautas importantes para os congressistas, como a segurança pública. Parece que há um certo “engarrafamento legislativo”. Não é impossível que uma versão light seja aprovada, mas está se tornando mais difícil, dada a questão do tempo. O ideal é passar o que for possível o quanto antes, porque a cada momento que se adia a reforma, o problema não é resolvido e faz com que a reforma tenha de ser mais severa, as regras de transição mais abruptas. A versão mais light geraria economia de 50% da economia proposta pelo governo.
Nos últimos anos, vimos um enorme salto da dívida pública em relação ao PIB. Para onde caminha essa situação?
Com a volta do crescimento da economia, o efeito da queda dos juros e a devolução de recursos do BNDES ao Tesouro, o ritmo de crescimento da dívida bruta nos próximos um ou dois anos vai ser bem mais lento do que foi nos últimos dois anos. Não significa, de forma alguma, que a questão fiscal está sendo resolvida. Continuamos com um problema fiscal muito sério, que é transformar um déficit primário (resultado das receitas menos as despesas do governo, sem contar o pagamento dos juros da dívida) de 2,5% do PIB em um superávit ao redor de 2,5%, ou seja, um desafio de 5 pontos do PIB. É muito difícil conseguir superar esse desafio e também viver com outra trava fiscal, que é o teto de gasto, sem a reforma da Previdência. Se tiver reforma, pode ser que a relação dívida/PIB se estabilize. Sem reforma, não tem perspectiva.
O governo vai conseguir cumprir o teto de gastos nos próximos anos?
Estimamos que consegue cumprir, sem a reforma da Previdência, este ano e em 2018. Mas em 2019 complica e em 2020 fica inviável.
Qual o cenário para a taxa de juros no País?
Seguimos com a previsão de que o atual ciclo de cortes vai terminar com a Selic em 6,5%. Me parece claro que, se passar a reforma da Previdência, ainda que seja uma versão mais diluída, tem chance maior de o Banco Central continuar reduzindo os juros no início de 2018. Se a reforma não encontrar respaldo no Congresso, essa chance diminui. Não é condição absolutamente necessária a aprovação das reformas, mas acho que favoreceria de forma importante a continuidade do ciclo no ano que vem.
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