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Brasil O comportamento da inflação brasileira foi benigno nos últimos dois meses, mas isso parece já ter terminado

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A deflação dos alimentos ficou para trás, enquanto os custos de habitação tiveram a maior alta entre as nove categorias do índice.

Foto: Terdag Media/IA
A deflação dos alimentos ficou para trás, enquanto os custos de habitação tiveram a maior alta entre as nove categorias do índice. (Foto: Terdag Media/IA)

Um dia depois de o relatório de política monetária do Banco Central apontar maior pressão sobre os preços e projetar avanço de 0,65% para o IPCA de setembro, o IPCA-15 superou as expectativas e registrou alta de 0,7%. A deflação dos alimentos ficou para trás, enquanto os custos de habitação tiveram a maior alta entre as nove categorias do índice, de 2,07%.

O resultado confirma que o efeito do bônus de Itaipu sobre as contas de energia, que havia provocado queda de 0,4% no IPCA-15 do mês anterior, foi pontual. No relatório, o Banco Central afirmou que, embora as perspectivas para a inflação em 2026 tenham melhorado, “as expectativas de inflação para 2027 e 2028 continuaram a se deteriorar”.

A piora relativa do cenário torna mais complexa a continuidade dos cortes da taxa Selic. Quando o Banco Central decidiu manter a redução dos juros em junho, um dos argumentos foi a projeção de inflação de 3,2% no horizonte relevante da política monetária, então concentrado no primeiro trimestre de 2028. A avaliação era de que a manutenção da política monetária restritiva levaria a inflação para abaixo da meta de 3%.

O BC mantém a projeção de 3,2% para o período em seu cenário de referência, mas afirma que a trajetória prevista para a Selic é “de modo geral, ligeiramente mais alta que no RPM anterior, embora permaneça a perspectiva de queda gradual nos juros”.

O balanço de riscos continua assimétrico, com fatores que podem pressionar a inflação para cima. Entre eles está a estimativa de um hiato do produto mais elevado. No segundo trimestre, o indicador, que mede a distância entre o crescimento da economia e seu potencial, foi de 0,5%. A projeção é que passe para -0,4% no terceiro trimestre de 2027, em meio à desaceleração econômica e à política monetária restritiva.

Essa combinação levaria, segundo o BC, a inflação para 3,9% no último trimestre de 2027, 3,2% no primeiro trimestre de 2028 e 3,1% a partir do segundo trimestre daquele ano até o início de 2029. As projeções consideram uma redução dos juros conforme o ritmo previsto pelo mercado no Focus, com a Selic em 12% no fim de 2027.

A desaceleração da economia já observada levou o Banco Central a reduzir suas projeções de crescimento para 2026 e 2027. A expectativa agora é de expansão de 1,8% neste ano e de 1,4% no próximo, em linha com as estimativas de analistas privados.

O cenário também é influenciado por fatores externos. Tensões geopolíticas, juros elevados no exterior, aumento dos preços do petróleo e a possibilidade de ocorrência de um El Niño forte e prolongado ampliam as incertezas sobre as projeções econômicas.

Segundo o Banco Central, choques de oferta não são combatidos prioritariamente pela política monetária, que procura evitar seus efeitos secundários sobre os preços. Até o momento, esses efeitos não apareceram de forma significativa. Os impactos primários também foram parcialmente mitigados por subsídios à gasolina, ao diesel e ao etanol, que reduzem o repasse dos preços aos consumidores.

A pesquisa Firmus, realizada com empresas privadas, mostrou que 50% das companhias consultadas não alteraram os preços de seus produtos. Além disso, 64% não relataram dificuldades para comprar insumos e a mesma proporção não registrou mudança na demanda doméstica.

A trégua na guerra entre Israel e Irã também contribuiu para a redução dos preços de ureia e fertilizantes antes do início do plantio, diminuindo a pressão sobre os custos dos agricultores. O BC afirmou ainda que “não se observam sinais de aumento da inflação em segmentos presumidamente pouco expostos ao aumento dos preços de petróleo e derivados”.

Os efeitos de segunda ordem sobre os salários também não se manifestaram. Embora o mercado de trabalho permaneça aquecido, os reajustes salariais apresentam moderação. A média dos aumentos negociados em convenções coletivas caiu de 5,7%, em fevereiro, quando começou a guerra no Golfo, para 5,1% em agosto.

Para o Banco Central, um crescimento menor da economia deverá ser acompanhado de melhora gradual do resultado primário estrutural das contas públicas. A projeção de crescimento também considera menor impulso do crédito e redução da contribuição da agropecuária e da indústria extrativa.

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