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Mundo O coronavírus levou a uma pandemia de poluição plástica

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Conforme o mundo produz mais equipamento de proteção – e se alimenta de comida para viagem –, quem sofre é o oceano. (Foto: Reprodução)

“O Tâmisa sempre foi um espelho dos tempos”, diz Lara Maiklem, uma “catadora de lama” de Londres. Lara passa os dias na praia do rio vasculhando em busca de detritos da história, de vasos romanos a tubos de argila da era vitoriana. Ela sabe dizer em que época do ano estamos simplesmente olhando para o tipo de lixo que encontra: garrafas de espumante na primeira semana de janeiro; bolas de futebol no verão.

O ano de 2020 deixou sua marca particular. Depois que o coronavírus chegou à Grã-Bretanha, a lama ficou repleta de luvas de borracha.

Em fevereiro, a meio mundo de distância, Gary Stokes atracou seu barco na isolada Ilha Soko, em Hong Kong. É nas praias de Soko que a OceansAsia, organização de preservação dos oceanos administrada por ele, registra esporadicamente os níveis de poluição plástica no mar.

Stokes diz que já se acostumou a encontrar as porcarias descartadas pelo mundo moderno, como garrafas plásticas de bebida e sacolas plásticas de supermercado. Mas o que ele documentou naquele dia ganhou as manchetes em toda Hong Kong: 70 máscaras cirúrgicas em um trecho de 100 metros de praia. Depois de recolhê-las, ele fez nova visita ao local quatro dias depois. Como uma teimosa erva daninha, as máscaras tinham voltado.

Seja nas praias do Tâmisa ou nas praias desertas da Ilha Soko, o planeta está repleto de lixo plástico da pandemia. É difícil encontrar dados concretos, mas é possível que o consumo de plástico descartável tenha aumentado entre 250 e 300% nos Estados Unidos desde a disseminação do coronavírus, diz Antonis Mavropoulos, da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), que representa órgãos recicladores de 102 países.

Boa parte desse aumento decorre da demanda por produtos pensados para manter a Covid-19 afastada, incluindo máscaras, visores e luvas. De acordo com previsão da Grand View Research, o mercado global de máscaras descartáveis vai crescer de estimados US$ 800 milhões em 2019 para US$ 166 bilhões em 2020.

Por mais impressionantes que pareçam tais números, a proteção pessoal é apenas parte da novidade. As quarentenas também levaram a uma explosão no comércio eletrônico. Em março, com o fechamento de parte dos EUA e da Europa, cerca de 2,5 bilhões de clientes devem ter visitado o site da Amazon, aumento de 65% no movimento em relação ao ano passado. Na China, mais de 25% das mercadorias físicas foram compradas na internet durante o primeiro trimestre do ano, de acordo com o Instituto Peterson de Economia Internacional, um centro de estudos estratégicos de Washington, DC.

Boa parte daquilo que é comprado na internet vem embrulhada em plástico – de um tipo péssimo de plástico, por sinal. As mercadorias costumam ser embaladas em diferentes camadas de plásticos. Isso mantém o conteúdo em segurança ao longo do transporte, seja aéreo ou terrestre. Mas torna também quase impossível a reciclagem desse plástico. Ao mesmo tempo, as massas confinadas em quarentena têm consumido mais pedidos de restaurantes para viagem, alcançando números recordes.

As vendas do primeiro trimestre do Uber Eats, por exemplo, um dos maiores aplicativos de entrega de restaurantes dos EUA, tiveram alta de 54% ante o ano anterior. Cada porção extra de curry, cada embalagem de maionese gourmet significa mais resíduo plástico.

Se o crescente apetite do público pelo plástico descartável preocupa os ambientalistas, o mesmo vale para a queda no ímpeto de reciclar materiais que podem ser reutilizados. Em Atenas, por exemplo, houve um aumento de 150% na quantidade de plástico encontrada no lixo comum, diz Mavropoulos. Evidências coletadas por membros da ISWA indicam que esta é uma tendência global. A menor adesão à reciclagem pode ser explicada pelo nervosismo das pessoas em saírem para levar o lixo aos latões de reciclagem. Ou talvez a quarentena tenha distraído todos com preocupações mais urgentes, levando a uma queda na disciplina.

A Covid-19 levou a outros tipos de aumento no acúmulo de resíduos plásticos. Para começar, a pandemia levou a uma implosão do preço do petróleo. Como o petróleo é um importante ingrediente da maioria dos plásticos, a produção destes se tornou mais barata, diz David Xi, da Universidade de Warwick.

Por sua vez, isso reduziu o incentivo às empresas para que usassem o material reciclado. Mas o crescimento dos resíduos plásticos é causado principalmente pelo fato de municípios em todo o mundo terem limitado o cronograma de reciclagem.

A coleta foi reduzida e usinas foram fechadas por medo da disseminação da doença. Preocupações com o lixo contaminado também deixaram coletores e separadores nervosos com a volta ao trabalho (o vírus é capaz de sobreviver por cerca de 72 horas no plástico).

Tudo isso significa que boa parte do plástico produzido este ano está chegando aos aterros sanitários ou aos incineradores. Ambos os desfechos podem levar a problemas no futuro.

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