Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 5 de abril de 2020
Na casa do professor de robótica Paulo Rodrigues o escritório não tem porta: o que o seu filho Matheus, de 14 anos, faz no computador fica à vista para toda a família. “Vemos tanta notícia ruim que é importante fazer esse acompanhamento”, diz o pai. No último ano, Paulo, de 48 anos, também instalou nos dispositivos da casa um software de controle parental que restringe o acesso do adolescente ao computador fora do horário estipulado e também envia notificações para os pais caso ele tente acessar um conteúdo estranho.
Esse tipo de cuidado com o acesso de adolescentes na internet deve ser redobrado em época de quarentena, segundo especialistas de segurança digital ouvidos pelo Estado, uma vez que as crianças estão passando mais tempo no computador e no celular durante o confinamento. Os perigos e os métodos para proteger as crianças, entretanto, são os mesmos de sempre.
“A internet é como se fosse uma rua digital. Os cuidados que os pais têm quando os filhos vão para a rua também devem ser tomados quando eles vão para a rede, como não conversar com estranhos, por exemplo”, afirma Rafael Santos, coordenador do curso de Defesa Cibernética da FIAP.
Além da exposição exagerada em redes sociais, de possíveis conversas com desconhecidos e de conteúdos inapropriados na rede, alguns perigos da internet merecem atenção especial dos pais. “Muitas vezes o adolescente acaba baixando programas, aplicativos ou jogos que infectam o computador, porque não têm noção do que é seguro ou não”, afirma Fabio Assolini, analista da empresa de cibersegurança Kaspersky no Brasil.
Ele também aponta para o risco de um golpe online chamado phishing, que tornou-se comum no Brasil, no qual o usuário é infectado após clicar em um link suspeito ou baixar um arquivo malicioso de um e-mail. Outro risco amplamente conhecido é o de correntes na internet que engajam jovens com desafios que podem ser perigosos.
Ferramentas
Para proteger os adolescentes, softwares de controle parental como o que o professor Paulo usa são recomendados por especialistas. “São muitos riscos, e os pais nem sempre estão por perto. Essas ferramentas ajudam a limitar o uso do dispositivo, a bloquear conteúdos inadequados e também têm proteção antivírus que podem proteger os adolescentes contra ataques de phishing, por exemplo”, explica Assolini, da Kaspersky.
Essas ferramentas podem ser configuradas pelos pais de acordo com a rotina de cada casa e também da visão de cada família sobre o que é um conteúdo adequado ou não. E é possível alterar as regras sempre que for necessário: por causa da quarentena, por exemplo, Paulo, que antes bloqueava o acesso do filho ao computador antes das 16h, liberou para ele usar a máquina durante a manhã, por causa das aulas online da escola – além disso, como está de home office, consegue acompanhar Matheus de perto.
Outro método que alguns pais usam é pedir a senha de desbloqueio dos celulares dos filhos e de suas contas nas redes sociais. É o caso de Silvia Nunes, mãe da Laís, de 13 anos, e da Ísis, de 15. “Acompanho de vez em quando para saber se não há nenhuma conversa com estranhos. Teve uma vez em que a minha filha menor mudou a senha do celular e ficou de castigo por dois meses, sem poder usar o aparelho”, diz ela, que é dona de casa, está em quarentena com as filhas e o marido e continua atenta às atividades das meninas na internet durante o isolamento.
Conversa
Nesse processo de monitoramento, o diálogo é essencial. “É preciso explicar e negociar, porque se você faz controle parental extremo, como cortar totalmente o acesso à internet, pouco tempo depois a criança ou o adolescente vai dar um jeito de entrar na internet do vizinho”, afirma João Cesar Netto, professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
É nisso que acredita Luciane Marinho, mãe de Eliseu, de 11 anos. “Tudo é muito conversado. Se falo para ele não assistir um vídeo do YouTube, ele não assiste. Muitas vezes ele até vem me mostrar o que ele faz no TikTok, um aplicativo que virou moda agora”, diz a funcionária pública, que usa apenas o bloqueio de sites tradicional de navegadores.
Para a professora de Psicologia da PUC Fabiola Freire o diálogo também é importante para garantir que a criança ou o adolescente desenvolvam sua intimidade e autonomia. “Tem limite o quanto pode invadir. É absolutamente importante para o desenvolvimento da subjetividade da criança que a privacidade seja mantida e intimidade, respeitada”, afirma.
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