Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Renato Zimmermann | 30 de novembro de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Estamos vivendo um período que só pode ser descrito como um delírio coletivo. A sensação é de que a realidade se fragmentou em milhares de pequenas bolhas digitais, cada uma com sua própria versão dos fatos, sua própria “verdade” fabricada. A desinformação, que se espalha com velocidade maior do que qualquer vírus, tornou-se um problema de saúde pública. Pesquisas recentes apontam que a exposição constante a notícias falsas e narrativas manipuladas está diretamente ligada ao aumento de ansiedade, estresse e até depressão em populações inteiras. Não é exagero dizer que estamos diante de uma epidemia silenciosa, que corrói a confiança social e mina nossa capacidade de convivência.
Essa experiência me veio à mente quando retornei de Belém do Pará, após participar da COP30. A cidade estava preparada, organizada, vibrante, e o povo, hospitaleiro como poucos. Em cada esquina, um sorriso, um agradecimento por estar ali. Belém se mostrou uma das cidades mais belas e acolhedoras que já visitei. Mas, ao regressar, fui surpreendido por perguntas carregadas de preconceito: “Sobreviveu à COP?”, “Não inalou fumaça?”, “Aguentou o fedor da cidade?”. Essas frases, repetidas sem reflexão, revelam como narrativas distorcidas conseguem se instalar no imaginário coletivo. É frustrante perceber que, mesmo diante de uma experiência tão rica, a percepção de muitos foi moldada por informações enviesadas que circulam nas redes. Eis o poder da desinformação: ela cria imagens falsas que obscurecem a realidade.
A COP30, claro, teve seus problemas, mas foi um marco. Nunca mais uma conferência será a mesma depois de passar pelo Brasil. Havia uma harmonia palpável entre povos, culturas e idiomas. Bastava um olhar, um cumprimento, um sorriso para sentir que estávamos unidos por uma causa maior. Essa é a essência do encontro: trazer vozes diversas, da sociedade civil à iniciativa privada, para discutir o futuro do planeta. No entanto, os jogos de interesse tentam capturar o evento em narrativas que servem a agendas particulares. É aqui que a desinformação mostra sua face mais perigosa: ela não apenas distorce fatos, mas manipula emoções, divide comunidades e fragiliza consensos.
A história bíblica da Torre de Babel nos ajuda a compreender o momento atual. Naquele tempo, os povos deixaram de se entender porque suas línguas se confundiram. Hoje, vivemos uma Babel digital: algoritmos criam bolhas informacionais, cada uma falando sua própria língua, incapaz de dialogar com as demais. Não existem verdades universais, apenas pontos de vista moldados e amplificados por sistemas que entregam conteúdo sob medida para cada perfil. O resultado é uma sociedade em histeria coletiva, onde a percepção da realidade é cada vez mais subjetiva e manipulável.
A pauta ambiental, discutida na COP, é um exemplo claro dessa disputa de narrativas. A certeza é única: precisamos salvar o planeta de nós mesmos. Explosões solares podem afetar sistemas de comunicação e energia na Terra, mas são fenômenos cósmicos naturais, parte do funcionamento do universo. Diferente disso, a degradação ambiental causada por humanos é uma escolha ética. Não temos mais o direito de nos colocar como protagonistas absolutos. O planeta é anterior a nós, composto por uma biodiversidade que sustenta a vida em múltiplas formas. A histeria coletiva que vivemos, alimentada pela desinformação e pela ilusão de centralidade humana, nos impede de enxergar que somos apenas parte de um ecossistema maior.
O que vi em Belém foi um contraponto a esse delírio: pessoas unidas, conscientes da urgência, dispostas a dialogar. Mas o que ouvi ao voltar foi a prova de que a desinformação continua a corroer nossa percepção. Este texto não pretende trazer verdades absolutas, mas provocar reflexão. O autor não é dono da verdade, mas também não pode se calar diante de tanta futilidade e informações desencontradas. Precisamos reverter esse quadro. O despertar de consciência é urgente: reconhecer que vivemos em bolhas, que nossas percepções são manipuladas, e que só a busca coletiva por diálogo e ética pode nos tirar desse período de delírio coletivo.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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Agora doidou de vez!!
Muito interessante. Sua reflexao e’ um espelho da realidade, nao so’ brasileira mas mundial. Aqui nos EUA talvez essa divisao pernicia esta mais acirrada do que qualquer outro lugar no mundo. Mas assim que desligamos o computador, e saimos a rua, a interagir com outros, a realidade e’ bastante diferente – muito mais humana talvez.