Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 16 de março de 2021
Aos 77 anos, o paulista Antônio Drauzio Varella é uma das vozes mais atuantes do País em questões na área de saúde. Médico oncologista formado pela Universidade de São Paulo (USP), foi um dos pioneiros no tratamento da aids.
Também escritor, o Doutor Drauzio, como tornou-se conhecido, é um dos profissionais que estão na cruzada pela vida, que fazem apelos cotidianos à população diante do terror do dramático avanço da covid e da nefasta ação dos negacionistas.
Nesta entrevista, ele critica de forma veemente a condução da crise sanitária pelo presidente Jair Bolsonaro e adverte que, por falta de ações e de vacinas, os brasileiros tornaram-se párias no mundo.
1) As variantes do coronavírus assustam o mundo e podem colocar em risco até mesmo as vacinas. Neste momento, o Brasil passa a ser uma ameaça global?
Quanto mais tempo dura a epidemia, mais há probabilidade de surgirem variantes. Isso acontece de forma aleatória. E nesse grande número você acaba separando aquelas que têm mais facilidade de contágio, por exemplo. Isso está acontecendo no Brasil e vai continuar acontecendo. E ninguém sabe ainda as consequências, não há tempo para avaliar se as variantes podem ser controladas. Os estudos são incipientes. O mundo inteiro tem essa preocupação. De alguma forma nos transformamos em párias (excluídos da sociedade) no meio da pandemia. O Brasil tem 212 milhões de habitantes, com fronteiras com quase todos os países da América do Sul. O mundo não quer um país do tamanho do nosso com a epidemia correndo solta e sem perspectiva de controle.
2) A medicina trabalha com um horizonte? É possível projetar quando o Brasil e o mundo poderão voltar à tão sonhada normalidade?
O mundo só vai ter tranquilidade quando o vírus for eliminado. Enquanto existirem bolsões por aí, nós vamos correr risco. Talvez nunca mais a gente fique livre do coronavírus. Não se consegue vacinar todas as pessoas por dificuldades técnicas, regionais e por causa dos idiotas dos movimentos antivacina. O vírus vai persistir. Quanto tempo vai durar a vacinação, é impossível dizer. Vamos torcer para que a gente tenha uma imunidade duradoura, mas é possível que tenhamos vacinações anuais. Infelizmente ainda vai morrer muita gente aqui, porque o vírus avança em grande velocidade e a vacinação é lenta. Há epidemiologistas que calculam que seremos o país com o maior número de mortes no mundo (os EUA têm quase 540 mil). Os Estados Unidos vacinam três milhões de pessoas por dia e a mortalidade lá vai cair muito. Nós vamos levar muito tempo para controlar. E as repercussões na economia são péssimas. É preciso vacinar a população. Nós médicos falamos isso há tanto tempo e ninguém agiu. E agora o ministro Paulo Guedes fala que, sem vacina, não se pode garantir o crescimento. Mas só agora? O Brasil não trabalhou pelas vacinas. Sem vacinas, não há solução.
3) Que recomendações o senhor faria aos brasileiros para as próximas semanas e meses de epidemia?
Pelo ritmo das vacinações, não dá para esperar um controle a curto prazo. Talvez a médio e longo prazos. O momento é gravíssimo. Precisamos fazer o básico: saiu de casa, coloque a máscara. É desconfortável, mas não há jeito. O profissional de saúde também não gosta de usar máscara, mas tem que usar. É importante evitar aglomerações, festas, mesmo que com pouca gente, em família. Não é hora para isso. É preciso paciência e responsabilidade.
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