Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 9 de março de 2019
O presidente Jair Bolsonaro aproveitará a sua visita a Washington, na próxima semana, para apresentar acordos nas áreas de segurança, tecnologia e avanços em comércio e na cooperação militar. O encontro com Donald Trump – o primeiro bilateral de Bolsonaro – será uma oportunidade para o presidente brasileiro se “relançar” na comunidade internacional, depois da estreia sem muito brilho, segundo a avaliação até de aliados, no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), em janeiro. Para especialistas, o risco é Bolsonaro acabar “cooptado” pela agenda do mandatário republicano. As informações são do jornal O Globo.
Até sexta-feira, estava praticamente certa a assinatura de três memorandos de entendimento nas áreas de segurança nas fronteiras, treinamento e inteligência e um acordo entre as agências espaciais americana (Nasa) e brasileira (AEB), para o desenvolvimento de um satélite de observação.
Os dois países também estavam a um passo de chegar a um entendimento sobre o acordo de salvaguardas tecnológicas que vai permitir o lançamento de satélites americanos da base de Alcântara, no Maranhão. No futuro outros países que usam tecnologia americana poderiam usar a base. Na prática, isso permitiria a viabilidade de Alcântara, que nunca foi usada comercialmente.
O memorando de entendimento contém as bases de negociação para um acordo futuro. No caso dos três atos a serem assinados na área de segurança, o corpo desses futuros tratados vai envolver órgãos de segurança e inteligência dos dois países, como a Polícia Federal e o FBI. Sérgio Moro, ministro da Justiça, estará na comitiva presidencial justamente para celebrar estes acordos. Já o satélite a ser construído em conjunto será voltado para questões climáticas e navegação marítima.
Pelo menos até agora, o que existem são expectativas em torno de uma série de itens que fazem parte da agenda bilateral e deverão ser levantados no encontro entre Trump e Bolsonaro. Fala-se, por exemplo, na possibilidade de, durante a visita do presidente brasileiro àquele país, Washington anunciar que dará ao Brasil o status de “aliado extra-Otan” – ou seja, que não faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte, mas passa a ser considerado parceiro estratégico dos EUA. O assunto já foi conversado entre o chanceler Ernesto Araújo e Mike Pompeo, secretário de Estado americano.
Um dos principais benefícios de um país se tornar aliado estratégico “extra-Otan” dos Estados Unidos é o acesso à transferência de tecnologia na área militar. Segundo uma fonte, porém, esse tipo de concessão, que já foi dada a nações como Jordânia, Argentina, Israel e Egito, entre outras, depende da aprovação do Congresso americano. A atual maioria democrata na Câmara, juntamente com uma avaliação negativa de Bolsonaro da parte da esquerda americana, tende a dificultar o avanço desse ponto.
Outro assunto que gera expectativa do lado brasileiro diz respeito a um eventual apoio dos EUA à candidatura do Brasil a integrante da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Até o ano passado, os americanos estavam ao lado da Argentina para assumir a vaga. De acordo com um integrante do governo, o fator complicador é que Washington tem dado sinais de que está mais preocupada em resolver a questão dos critérios para o ingresso de novos membros, em debate atualmente, deixando em segundo plano a ampliação do número de associados da organização. De qualquer maneira, a visita poderá ajudar a “destravar” as tratativas brasileiras no organismo, ainda em compasso de espera.
A abertura de uma negociação para um acordo de livre comércio entrará de vez na agenda bilateral a partir do encontro entre Trump e Bolsonaro e deve ser mencionada na declaração presidencial, como uma das formas de aprofundar o relacionamento econômico-comercial. Nesse caso, será a primeira vez que o Brasil negociará um acordo do gênero separadamente dos demais parceiros do Mercosul. Ainda não está claro qual será o tom desse ponto.
Da mesma forma, não está claro como será abordada a questão da guerra comercial entre EUA e China no debate. Há quem acredite que isso possa ser discutido entre as autoridades dos dois países, principalmente com a pressão americana para impedir que países utilizem a tecnologia da chinesa Huawei nas novas redes 5G de telefonia que serão construídas em breve. Temas ambientais – que já foram prioridades no passado – e de direitos humanos não devem ter destaque, ao contrário da situação da Venezuela, presente em todas as comunicações entre Washington e Brasília nos últimos meses.
O simbolismo da escolha dos EUA como primeiro destino bilateral de Bolsonaro indica que ambos pretendem usar politicamente o encontro. Enquanto Bolsonaro tenciona mostrar que é um líder que pode avançar na proximidade com a maior potência do mundo, Trump quer indicar que não está isolado e lidera um movimento de direita em todo o planeta. “Existe o risco de Trump tentar cooptar Bolsonaro, usando o encontro somente para a sua agenda”, afirmou Thiago de Aragão, da Arko Advice. “Um dos riscos é Bolsonaro cair no jogo de confrontação com os democratas, que seria ruim para o Brasil.”
Os comentários estão desativados.