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Colunistas O grito de Oslo

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A decisão do Comitê Nobel de Oslo de conceder o Prêmio da Paz de 2025 a María Corina Machado vai além do reconhecimento pessoal. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A decisão do Comitê Nobel de Oslo de conceder o Prêmio da Paz de 2025 a María Corina Machado vai além do reconhecimento pessoal: é um ato político global em defesa da democracia. Num mundo em que o autoritarismo avança — o Relatório de Democracia 2025 do V-Dem aponta, pela primeira vez em duas décadas, mais autocracias do que democracias —, a escolha de Machado simboliza a resistência pacífica contra a tirania.

Fundadora da organização Súmate e líder do Vente Venezuela, Machado há mais de vinte anos desafia o regime de Nicolás Maduro em nome de eleições livres, independência judicial e direitos humanos. Banida como candidata presidencial, apoiou Edmundo González e articulou uma rede de observadores que documentou a vitória opositora antes que o governo destruísse as urnas e adulterasse os resultados. O Comitê Nobel destacou seus métodos “inovadores e pacíficos”, e sua recusa ao exílio, mesmo sob ameaça de prisão, transformou-a em símbolo de resistência moral. Como disse o presidente do Comitê, Jørgen Watne Frydnes, “foi a urna contra as balas”.

O prêmio expõe a tragédia humanitária de um país devastado por uma ditadura que transformou prosperidade em ruína. Desde 2014, praticamente 8 milhões de venezuelanos deixaram o país, em uma das maiores crises migratórias do século. O ACNUR estima 7,8 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos. Segundo a UNICEF, 3,3 milhões de pessoas, entre elas 1,8 milhão de crianças, dependem de ajuda humanitária urgente. A elite chavista, blindada por corrupção e repressão, prospera sobre uma economia em colapso e um povo em desespero. Como alerta o Freedom House, a Venezuela tornou-se emblema do declínio global da liberdade.

A lição de Machado é inequívoca: a democracia não é ornamento institucional, é condição de paz duradoura. Como lembrou Nina Græger, diretora do Peace Research Institute Oslo, em 2024 o planeta registrou número recorde de eleições — mas pouquíssimas foram autênticas. O voto, cada vez mais, é sequestrado pela coerção, pela manipulação e pela mentira. Ao proclamar “votos em vez de balas”, Machado recorda ao mundo que a resistência civil, quando sustentada pela coragem moral, pode ainda inverter o curso da história.

No Brasil, o Nobel deve soar como um espelho incômodo. Enquanto Oslo denuncia a natureza autoritária do regime de Maduro, Brasília mantém uma complacência disfarçada de pragmatismo, conferindo legitimidade a um governo deslegitimado. Lula, que já criticou Caracas, hesita agora em romper com um aliado ideológico que sobrevive à custa da repressão. Essa ambiguidade não é neutralidade — é conivência. Apoiar Maduro em nome da “solidariedade latino-americana” é negar o próprio ideal democrático que o Brasil historicamente defendeu.

O prêmio a María Corina Machado não é apenas uma homenagem: é um chamado à consciência internacional. Um lembrete de que a democracia exige coragem — e de que o silêncio diante da tirania é sempre cumplicidade. Porque, como advertiu Frydnes, num mundo com menos urnas e mais correntes, é a própria paz que se dissolve.

Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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