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Comportamento “O objetivo era tornar as mulheres passivas”, diz historiadora sobre tratamento em hospital psiquiátrico nos anos 50

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Historiadora Eliza Teixeira de Toledo. (Foto: Divulgação)

A historiadora Eliza Teixeira de Toledo, da Casa Oswaldo Cruz, teve acesso a prontuários do Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, elaborados ao longo de 20 anos – entre as décadas de 1930 e 1950. A instituição fechou as portas em abril, após mais de 120 anos de funcionamento, mas deixou um rastro de casos polêmicos registrados por Toledo.

Os documentos mostraram, por exemplo, que muitas das mulheres internadas eram sãs. Elas iam para lá levadas por seus maridos porque tentaram escapar de casamentos arranjados ou queriam trabalhar. E raramente voltavam para casa – eram abandonadas na instituição. O trabalho ganhou o 7º Prêmio de Teses da Associação Nacional de História.

Em entrevista ao jornal O Globo, Eliza conta a história de pacientes, como a ocorrida com uma mulher submetida a uma lobotomia, intervenção cirúrgica extremamente agressiva no cérebro usada naquela época para casos graves de esquizofrenia. Os médicos não queriam fazer a operação, mas o marido enviou uma autorização, e os profissionais de saúde escreveram no prontuário: “Por insistência do marido, resolvemos fazer o procedimento”.

1-Qual era o principal perfil dos pacientes?

O Juquery era um hospital público, muitas pessoas que iam parar ali tinham baixa condição econômica, eram analfabetas. Casados ou solteiros, muitos não saiam do hospital porque não eram procurados pela família. Eram considerados pacientes difíceis que já tinham passado por outros tratamentos. As trajetórias de vida das mulheres, especificamente, foram as mais tristes. Elas já entravam com um histórico sofrido, de violência física e psicológica. Muitas tinham passado por violência dentro do casamento, foram obrigadas a casar, não tinham prazer com o marido. A filha de uma paciente russa deixou uma carta falando que a condição da mãe era em função de todo sofrimento causado pelos companheiros. Pude ver pela documentação a contestação delas a padrões impostos na época. Algumas reivindicavam não serem loucas. Muitas foram submetidas a lobotomia.

2-O que levava essas mulheres a serem operadas?

Os próprios médicos diziam que algumas pacientes eram lúcidas. O problema era mais uma patologia moral, de ir contra os costumes e a ideia do que era uma ‘mulher saudável’. Com outras, esse aspecto fica menos evidente na documentação, porque envolvia delírio e alucinação, então eram consideradas esquizofrênicas.

O que os médicos esperavam da lobotomia?O objetivo da própria terapêutica era acalmá-las, acalmar comportamentos de agitação. Queria-se a passividade delas. Era o Pressupunha-se uma passividade maior para uma mulher normal. Havia tolerância menor com a agitação porque não era um comportamento feminino. Tratava-se também de uma forma de gerência do espaço hospitalar. O primeiro trabalho sobre lobotomia nos EUA dizia isso, que era para deixar os pacientes mais manejáveis.

3-A senhora pode citar algum caso dessas mulheres identificado nos documentos?

Tem um em particular que me marcou muito. Uma paciente de origem japonesa que foi diagnosticada com esquizofrenia e os médicos não queriam fazer a cirurgia. O marido enviou uma autorização e os profissionais de saúde acabaram escrevendo no prontuário: “por insistência do marido, resolvemos fazer a psicocirurgia”. Essa paciente nunca saiu do hospital. Morreu dentro do Juquery. Houve também o caso de uma mulher internada com o diagnóstico de “personalidade psicopática amoral”, um comportamento antissocial. Ela havia sido obrigada pelo pai a casar. Separou um dia depois, foi morar em um albergue. Além de fazer sexo fora do casamento, o fato dela falar de forma aberta sobre a questão sexual era aberrante. No prontuário, os médicos dizem que ela vivia uma vida de ‘vagabunda’.

4-Como elas se comportavam no hospital?

Algumas tentavam resistir à lobotomia. Havia uma paciente com comportamento incontrolável, não aceitava nem mesmo medicação. Foi indicada várias vezes para a lobotomia, e quando se aproximava a data, eles anotavam que ela tinha melhorado, assim ela conseguia postergar a operação. Até que, um dia, quando entrou na sala de operações, reagiu e rasgou o prontuário. Não consegui saber se foi operada ou não. Talvez não. Tem outra paciente que quando foi para a sala de cirurgia, quebrou todas as janelas. Mas não conseguiu escapar. Havia casos de pacientes que passaram por quatro cirurgias desse tipo. No prontuário de uma, os médicos reproduziam seu pedido: “Não quero ser operada novamente”. Elas pediam para não passar por aquilo outra vez ou viam os resultados da cirurgia no convívio hospitalar.

5-Havia diferença no tratamento entre as mulheres?

Quando fui analisar os documentos por diagnóstico percebi uma diferença: a maior parte das mulheres brancas operadas era considerada esquizofrênica. As negras eram mais operadas por um diagnóstico que envolvia propensão aos vícios de qualquer natureza, em especial da sexual. Havia um peso moral nas terapias, portanto.

6-Como era o tratamento em relação aos homens?

A lobotomia era muito mais comum com as mulheres. Nos prontuários, consegui ver que havia uma tolerância maior à agressividade nos homens. Para as mulheres, agressividade era recusar os tratamentos, questionar situações dentro do hospital. São rebeldias que nem chegam à ordem física, como agredir alguém. Houve um caso de um que ficou internado muito tempo, por exemplo, que era agressivo, se envolvia em brigas, chegou a arrancar os olhos de outro paciente, ia para a rotunda (espécie de solitária da instituição). Ele teve várias indicações de lobotomia, mas sempre era postergado. Além disso, os homens passaram a ser submetidos a esse tipo de procedimento só depois que muitas mulheres já haviam sido alvo de testes.

7-Até quando a lobotomia foi usada pelos médicos?

Ela começou a cair em desuso gradualmente e por vários fatores. Na década de 1940 passa-se a ter uma ideia de ética médica. Juntamente, foram desenvolvidos medicamentos que tinham efeito equivalente. Na década de 1950 passa a ser necessária autorização para praticá-la. O último prontuário que encontrei com a psicocirurgia foi de 1956.

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