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Colunistas O problema nunca foi a beleza

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Existe uma pergunta que parece simples, mas raramente é respondida com honestidade: a beleza ajuda ou atrapalha?

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Existe uma pergunta que parece simples, mas raramente é respondida com honestidade: a beleza ajuda ou atrapalha?

Recentemente, durante a minha participação em um podcast, essa foi exatamente a pergunta que me fizeram. E talvez por isso tenha ficado ainda mais claro para mim o quanto esse é um tema presente, mas pouco aprofundado.

A resposta mais comum é direta. A beleza ajuda. E ajuda mesmo. Mas também pode atrapalhar. Tudo depende.

Existem estudos que mostram que pessoas consideradas bonitas têm mais oportunidades, são melhor recebidas e até percebidas como mais competentes antes mesmo de provar qualquer coisa. Um dos mais conhecidos, conduzido pelas pesquisadoras Judith Langlois e Lori Roggman, observou que bebês, ainda nos primeiros meses de vida, fixam o olhar por mais tempo em rostos considerados mais harmônicos.

Ou seja, a beleza chama atenção de forma quase instintiva, antes mesmo de qualquer construção cultural.

Mas o ponto central não está na abertura da porta. Está no que acontece depois, pois existe um padrão silencioso que se repete.

Quando uma mulher é bonita, surge a necessidade de explicar essa beleza. Se fez procedimentos, então é por causa disso. Se tem acesso a recursos, então isso justifica. Quando ela é bem-sucedida, o raciocínio segue o mesmo caminho. Foi oportunidade. Foi contexto. É casada com homem rico. É herdeira. Foi sorte. Foi influência.

Mas quando ela reúne estética, resultado e inteligência, o movimento muda de nível. Surge uma tentativa mais sofisticada de redução. E isso, muitas vezes, não é apenas opinião. É um sofisma. Um tipo de raciocínio que parece lógico à primeira vista, mas que é construído para sustentar uma conclusão conveniente, e não necessariamente verdadeira.

No contexto, ele funciona assim: ao invés de reconhecer mérito, cria-se uma explicação que diminui. Não para entender, mas para enquadrar, no contexto que estamos abordando é o de que aquela mulher não pode ser completa por mérito próprio.

Percebe o padrão?

A beleza não explica. E a competência não é aceita de imediato.
Existe sempre um esforço para encaixar aquela mulher em uma narrativa confortável para quem observa. E Isso também tem nome: Misoginia.

Nem sempre explícita. Muitas vezes sutil. Disfarçada de humor, de comentário leve, de dúvida constante. Aquela frase que parece elogio, mas carrega um pressuposto. Como quando se diz que alguém surpreende por não ser tão superficial quanto aparenta, ou quando a mulher precisa provar mais do que o homem para ser levada a sério.

O problema não está na frase em si. Está na expectativa por trás dela. E esse comportamento, infelizmente, não é exclusivo de homens. Muitas vezes, ele aparece entre mulheres. Mulheres que acompanham, elogiam, se inspiram. Observam, validam, reconhecem. Mas não fortalecem.

Não compram. Não indicam. Não se tornam parte ativa do crescimento da outra. É uma admiração que não se converte em apoio.

E isso também revela um padrão.

Diante disso, muitas mulheres passam por um movimento silencioso. Diminuem a própria presença. Ajustam a forma de falar. Reduzem a própria expressão.

Não por falta de capacidade. Mas por tentativa de pertencimento.

O problema é que esse ajuste cobra um preço alto. Porque, ao tentar caber, se afastam de quem são.

Existe, então, uma virada. Virada essa que chega com a maturidade. E ela acontece quando deixa de ser sobre provar e passa a ser sobre sustentar.

Sustentar a própria imagem, a própria trajetória, a própria identidade. Sem negociação com a expectativa alheia.

E, para quem tem fé, assim como eu, esse entendimento se aprofunda. A ideia de que existe um plano divino de que aquilo que é seu não depende da validação externa para permanecer.

Quando algo é realmente seu, não existe concorrência capaz de tirar. Pelo contrário: até movimentos contrários, até quem tenta prejudicar acaba te ajudando.

Isso muda o olhar, sai a necessidade de explicação e entra a clareza de posicionamento. E talvez a reflexão mais importante não esteja no outro, mas em quem observa.

O que exatamente incomoda quando alguém reúne qualidades que raramente aparecem juntas?

Porque, muitas vezes, o incômodo não está na outra pessoa, mas está no confronto silencioso com aquilo que ainda não foi resolvido em si.

E aqui cabe um ponto de honestidade.

Muito se fala em sororidade, mas na prática, ela ainda é seletiva. Ela aparece no discurso, mas nem sempre se sustenta na atitude.

Apoiar outra mulher exige mais do que admiração. Exige segurança interna.
Porque é fácil aplaudir de longe.

Difícil é reconhecer, de perto, sem competir, sem comparar, sem tentar diminuir.

E talvez seja esse o ponto que quase não se fala. Nem sempre falta apoio, às vezes, falta maturidade para lidar com o brilho do outro sem sentir que ele apaga o seu.

Por isso, mais do que cobrar sororidade, talvez seja hora de praticar consciência.

De olhar com mais verdade para si.

Porque quando uma mulher cresce de forma íntegra, ela não reduz o espaço de outra. Mas também não se diminui para caber nele.

No fim, a beleza continua abrindo portas.

Mas o que define permanência, expansão e respeito não é a aparência, é a capacidade de sustentar quem se é. E, principalmente, de lidar com quem também sustenta.

* Suellen Ribeiro – empresária e apresentadora do Jornal da Pampa, do grupo Rede Pampa (@suribeiroc)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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Luiz Carlos Portella
20 de março de 2026 17:30

Olha antigamente esse tipo de sentimento era chamado de inveja. O ser humano é mesquinho mesmo por natureza. isso que você discorreu muito bem se observa em outros seguimentos, sem a influencia da analise da pessoa ser bonita ou não, p.exp. médicos, advogados com a mesma especialidades, uns são bem sucedidos outro não, Gera a inveja, apresentadores de tv, é o seu caso, às vezes comparando um a um, ambas são lidíssimas! porém uma se sobre sai melhor que a outra, uma faz sucesso e a outra não. Pra mim, em se tratando de ser humano nada mais me surpreende;… Leia mais »

Cezar Roldão Schuaste
20 de março de 2026 09:32

Mas ainda assim com todo esse contesto, o problema mesmo é ser feia, já é excluida antes de qualquer entrevista, e se é pobre ai sim a coitada ta ferrada, e só pra fachina, então coitada da mulher bonita… como sofre a coitadinha….

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