Domingo, 05 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 24 de fevereiro de 2020
Se não fosse por uma atriz e pianista, talvez o GPS e o wi-fi não existissem.
No fim dos anos 1930 e início dos anos 40, Hedy Lamarr já era famosa em Hollywood por interpretar femme fatales. Poucos de seus contemporâneos sabiam, porém, que sua outra grande paixão era inventar: ela inclusive já havia projetado aviões aerodinâmicos para seu amante, o magnata da aviação Howard Hughes.
Mas foi em outra pessoa que Lamarr encontrou uma alma gêmea. George Antheil era um pianista de vanguarda, compositor e romancista que também tinha interesse em engenharia. E quando a dupla percebeu, durante a Segunda Guerra, que forças inimigas estavam interferindo nos sinais de rádio dos Aliados, Lamarr e Antheil se puseram a pensar em uma solução. O resultado foi um método de transmissão de sinal chamado espalhamento espectral com salto de frequência (patenteado sob o sobrenome de casada de Lamarr, Markey), que ainda é usado em boa parte da tecnologia sem-fio atual.
Pode parecer uma origem surpreendente para uma tecnologia inovadora, mas a história de Lamarr e Antheil se encaixa perfeitamente com o que se tem aprendido a respeito da mente polímata — a mente de pessoas com múltiplos talentos.
Além de ajudar a entender quais traços específicos permitem que algumas pessoas equilibrem sucesso em tantos campos diferentes de especialidade, novas pesquisas mostram que há muitos benefícios em se cultivar múltiplos talentos, como mais satisfação na vida pessoal, mais produtividade no trabalho e mais criatividade.
A maioria de nós pode nunca alcançar o sucesso obtido por pessoas como Lamarr ou Antheil, mas a ciência indica que todos poderíamos nos beneficiar em passar um tempo fora de nossas áreas de especialização escolhidas.
O que é um polímata?
Para começar, a definição de polímata é alvo de debate. O termo tem raízes na Grécia Antiga e foi usado no início do século 17 para referir-se a uma pessoa com “muitos aprendizados”, mas não tem jeito simples de decidir quão avançados esses aprendizados têm de ser e em quantas disciplinas. A maioria dos pesquisadores argumenta que, para ser um verdadeiro polímata, é preciso ter algum tipo de conhecimento formal em ao menos dois campos não relacionados entre si.
Uma das análises mais detalhadas do assunto vem de Waqas Ahmed, em seu livro The Polymath (O Polímata), publicado no início de 2019.
A inspiração para o livro foi parcialmente pessoal: Ahmed passou por diversos campos em sua carreira. Com bacharelado em economia e pós-graduações em relações internacionais e neurociência, Ahmed já trabalhou como jornalista diplomático e personal trainer (carreira que aprendeu nas Forças Armadas britânicas). Hoje, ele coloca à prova seu amor pelas artes visuais como diretor artístico de uma das maiores coleções privadas de arte do mundo, enquanto atua também como artista profissional.
A despeito dessas habilidades, Ahmed não se autoidentifica como polímata. “Seria um elogio grande demais me referir a mim mesmo assim”, ele diz. Enquanto examinava as vidas de polímatas históricos, ele só levava em conta os que haviam feito contribuições significativas em ao menos três campos — caso de Leonardo da Vinci (como artista, inventor e anatomista), Johann Wolfgang von Goethe (o grande escritor que também estudou botânica, física e mineralogia) e Florence Nightingale (que, além de ter fundado a enfermagem moderna, foi também uma exitosa estatística e teóloga).
A partir dessas biografias, e com a ajuda da literatura de psicologia, Ahmed conseguiu identificar as qualidades que permitem aos polímatas alcançar sua grandeza.
Como é de se esperar, a inteligência acima da média certamente ajuda, por “facilitar ou catalisar o aprendizado”, diz Ahmed. Mas ter curiosidade e a mente aberta também é essencial. “Você pode se interessar por um fenômeno, sem se interessar por onde esse interesse vai te levar”, prossegue Ahmed, mesmo que isso te leve para um território desconhecido.
Polímatas costumam ser, também, autossuficientes — felizes em ensinar a si mesmos — e individualistas; são movidos por um grande desejo de realização pessoal.
Essas qualidades também são combinadas com uma visão mais holística do mundo. “O polímata não apenas transita entre diferentes esferas, campos ou disciplinas, mas busca conexões fundamentais entre esses campos, de forma a oferecer percepções únicas para cada um deles”, diz Ahmed.
Assim como qualquer traço de personalidade, essas qualidades têm alguma base genética, mas também são moldadas por nosso ambiente. Ahmed lembra que muitas crianças são fascinadas por diferentes interesses, mas nossas escolas, universidades e profissões nos empurram para a constante especialização. Sendo assim, muitas pessoas teriam a capacidade de ser polímatas, se fossem devidamente encorajadas.
Essa ideia tem eco no trabalho de Angela Cotellessa, cujo doutorado na Universidade George Washington consistiu em entrevistar polímatas modernos a respeito de suas experiências. (Seus critérios foram ligeiramente menos rígidos que os de Ahmed. Os participantes tinham de ter carreiras bem-sucedidas em ao menos duas áreas separadas — uma em arte e outra em ciências — e se autoidentificar como polímata).
Assim como Ahmed, ela identificou que traços como curiosidade são essenciais. Mas Cotellessa descobriu que os polímatas também precisam de alta resiliência emocional para buscar seus interesses diante das expectativas externas, “porque vivemos em uma sociedade que nos diz para nos especializarmos, e essas pessoas não fizeram isso — elas traçaram seu próprio caminho”.
O poder da ‘polinização cruzada’
Há, é claro, algumas boas razões para que hesitemos em cultivar múltiplos interesses. Um deles é o medo de que podemos nos enfraquecer por nos devotar a mais de um passatempo. Com a atenção dividida, teríamos dificuldade em obter sucesso em qualquer um desses campos.
Na realidade, existem algumas evidências de que desenvolver-se em diversas disciplinas pode estimular a criatividade e a produtividade. Sendo assim, embora o aprimoramento de um segundo ou terceiro interesse possa parecer uma distração, pode acabar estimulando seu sucesso em seu campo inicial de trabalho.
No recém-lançado livro Range (Alcance, em tradução livre), David Epstein diz que cientistas influentes têm maior probabilidade de cultivar interesses diversos fora de seu campo primário de pesquisa, em relação à média de cientistas.
Ahmed e outros estudiosos argumentam que isso funciona como uma polinização cruzada, em que as ideias cultivadas em um campo servem de inspiração para o trabalho no outro.
George Antheil, por exemplo, havia se dedicado a fazer trilhas sonoras para pianolas autônomas sincronizadas. Com Hedy Lamarr, ele usou os mecanismos usados para esses instrumentos para desenvolver o aparelho que usou para descongestionar as linhas de rádio na Segunda Guerra.
Transitando entre áreas
Se você se sente tentado a viver uma vida mais polímata, Ahmed sugere que use seu tempo de modo mais eficiente, para abrir espaço para interesses múltiplos.
Existe uma crescente percepção de que, quando é necessário se concentrar em uma tarefa complexa, o cérebro chega a uma espécie de saturação, depois da qual sua atenção se perde — e esforços adicionais podem não servir. Mas, se você se dedicar a uma atividade diferente e não relacionada, vai retomar a capacidade de se esforçar. Transitar entre diferentes tarefas pode, dessa forma, aumentar a sua produtividade geral.
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