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Colunistas O senhor dos exércitos e o príncipe da paz

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Deus, ao longo da história humana, já foi invocado para quase tudo, até como fiador de guerras, e em escala menor, como garantidor da paz. Quando essa chancela divina, esse chamamento que clama pelo aval do além parte de membros de governos, sejam eles eleitos ou buscando chegar ao poder, o risco é geral. Ter fé é um direito legítimo de todos, porém tratar a fé enquanto estratégia de governo é a transformação da política em teologia e, pior, em teologia de confronto.

Nessa perspectiva, políticos passam a se enxergar como instrumentos divinos, enquanto conflitos internos ou internacionais deixam de ser problemas a serem mediados pela negociação e pela diplomacia para se tornarem etapas de um suposto plano sagrado. Quando um presidente se associa simbolicamente à figura de Cristo ou um secretário de Defesa recorre a passagens bíblicas para justificar ataques e pedir violência em oração, o sinal é de que a política perde seus freios racionais e passa a operar no terreno do fundamentalismo religioso.

A história mostra os riscos desse movimento. Se, como já se argumentou, conceitos centrais do Estado moderno derivam de categorias teológicas secularizadas, hoje parece ocorrer o inverso: a religião é instrumentalizada para legitimar o poder político e a guerra. Nesse contexto, ganha força a chamada “teologia do domínio”, uma leitura seletiva e literalista do Antigo Testamento que transforma a fé em projeto de poder.

Não por acaso, essa visão dialoga com ideias históricas como o “destino manifesto”, que justificou a expansão territorial dos Estados Unidos como missão divina. Agora, essa lógica ressurge com novas linguagens, estética renovada e alcance global, influenciando decisões concretas de Estado.

No Brasil, essa matriz ideológica encontra terreno fértil. Observa-se uma adaptação local que combina fundamentalismo religioso, guerra cultural e ambições de poder. Não é coincidência que adversários políticos passem a ser tratados como inimigos morais ou espirituais, nem que o debate público seja reduzido a uma batalha entre o bem e o mal e até bancadas no Congresso são identificadas a partir de matrizes religiosas.

Quando isso acontece, a democracia entra em risco, pois ela depende de uma premissa simples e frágil: ninguém detém a verdade absoluta, e conflitos podem e devem ser negociados. O fundamentalismo político-religioso rompe com esse princípio. Se o outro não é apenas alguém que discorda, mas alguém “contra Deus”, o diálogo se torna impossível. Resta apenas o confronto.

Há, ainda, uma contradição profunda nesse processo. O movimento que se apresenta como defensor do cristianismo frequentemente se afasta de seus valores centrais. A ética da compaixão, do acolhimento e da recusa da violência, presente no Novo Testamento, cede lugar a uma lógica de punição, exclusão e guerra. É um cristianismo esvaziado de Cristo, ou filtrado por interesses de poder.

A tradição evangélica apresenta um Cristo que prega o amor aos inimigos e rejeita o uso da força como linguagem política. Já a leitura seletiva que inspira setores do fundamentalismo contemporâneo privilegia figuras guerreiras e a ideia de um Deus que legitima o combate. Não se trata de negar a complexidade dos textos bíblicos, mas de reconhecer uma operação política: escolhe-se a imagem do “Senhor dos Exércitos” em detrimento do “Príncipe da Paz”.

Essa escolha não é apenas teológica, é estratégica. Ao evocar um Deus que autoriza a dominação, constrói-se uma narrativa capaz de justificar enfrentamentos permanentes e transformar adversários em inimigos morais. Nesse ponto, a fé deixa de ser experiência espiritual e passa a funcionar como linguagem de poder.

Diante disso, é preciso mais do que preocupação: é necessária lucidez. Lucidez para reconhecer, no cotidiano, quem instrumentaliza a fé para justificar intolerância, violência e exclusão. E responsabilidade democrática para não legitimar esse discurso, nem pelo silêncio nem pela indiferença. O espaço público só permanece livre quando a sociedade se recusa a entregá-lo àqueles que desejam transformá-lo em um campo de guerra moral.

(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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