Segunda-feira, 20 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 19 de julho de 2026
No cerne da nova ameaça dos Estados Unidos de impor tarifas alfandegárias contra o Brasil há uma fonte de irritação de aparência inofensiva: um sistema de pagamentos instantâneos utilizado por milhões de pessoas todos os dias na maior economia da América Latina.
O Pix, serviço administrado pelo governo, tornou-se praticamente onipresente no território continental do país, das regiões remotas da floresta amazônica às favelas nas cidades.
Gratuita para os consumidores e de baixo custo para as empresas, a ferramenta de transferência digital de dinheiro é saudada por ter suscitado um grande impulso à inclusão financeira em uma das sociedades mais desiguais do mundo desde seu lançamento, no fim de 2020.
Integrado aos aplicativos de telefone celular dos bancos e das firmas de tecnologia de serviços financeiros, o sistema permite transferências diretas entre contas bancárias sem necessidade de cartões de crédito ou de débito. O Banco Central do Brasil informa que a ferramenta trouxe mais de 70 milhões de pessoas ao sistema financeiro.
“O Pix é ótimo porque você não precisa levar dinheiro [físico], você pode fazer tudo só com seu telefone”, diz Cícero Alves, taxista de 79 anos, no Rio de Janeiro.
No entanto, apesar de ser um êxito do governo – ou talvez justamente por isso -, o Pix está entre as principais justificativas para a taxa de 25% que Washington ameaçou em junho impor sobre vários dos produtos que importa do Brasil.
Segundo apoiadores do governo de esquerda em Brasília, o motivo é que o popular instrumento de pagamento representa um desafio para as redes de cartões da Visa e da Mastercard, dos EUA, assim como para outras empresas de pagamentos e de tecnologia do país.
Uma investigação do Gabinete do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) em junho sobre as supostas práticas comerciais injustas acusou o Brasil de dar tratamento preferencial à “campeã nacional” à custa das empresas de meios de pagamento dos EUA, pois limita as tarifas cobradas para encorajar o uso do Pix, em vez dos sistemas concorrentes. Todas as instituições financeiras com mais de meio milhão de clientes são obrigadas a oferecer a ferramenta a eles.
O relatório descreveu as políticas relacionadas ao Pix como “injustas e discriminatórias”. Também sustentou que há conflito de interesses pelo fato de o Banco Central (BC) atuar ao mesmo tempo como operador do sistema e seu regulador.
Embora nenhuma medida tenha sido proposta diretamente contra o Pix, as críticas a um patrimônio nacional tão apreciado desencadearam uma controvérsia política no Brasil, que deverá estar presente nas próximas eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou o principal adversário na disputa de outubro, o senador Flávio Bolsonaro – filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso -, de ter feito um convite para que houvesse interferência externa.
“Querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele”, publicou Lula nas redes sociais.
Flávio Bolsonaro, que visitou Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca poucos dias antes da divulgação do relatório do USTR, nega as acusações e pediu ao governo Trump para não impor novas tarifas antes da eleição. Ele argumenta que isso beneficiaria Lula politicamente.
Em Washington, Flávio defendeu o Pix. Disse que o instrumento “beneficiou diretamente empresas americanas, uma vez que o volume de transações processadas via cartões emitidos por redes dos EUA continuou a crescer”.
No entanto, em um documento enviado ao USTR, ele também se dispôs a impedir que o Pix seja integrado a sistemas transfronteiriços de liquidação financeira de países não ocidentais – um aparente aceno às preocupações do governo Trump quanto a possíveis iniciativas para que o comércio internacional passe a depender menos do dólar, como defende Lula.
À medida que se aproxima o fim do prazo para o USTR tomar medidas contra o Brasil, que vai até 15 de julho, Lula vem recorrendo ao sentimento local de patriotismo para tentar repetir o impulso na popularidade que ganhou quando a investigação foi aberta pela primeira vez, há um ano. Na ocasião, ela veio acompanhada de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros – agora já revogada – que tentou sem sucesso impedir o processo contra Jair Bolsonaro, aliado de Trump, por acusações de tentativa de golpe de Estado. Com informações do Valor Econômico.
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