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Economia “Crédito farto” promovido pelo governo impacta dívida e inflação, dizem economistas

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Segundo o economista, além da possibilidade de inadimplência, o desenho das operações produz efeitos fiscais que nem sempre ficam evidentes. (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A expansão das linhas de financiamento tornou-se a principal ferramenta do governo para sustentar o crescimento da economia, na avaliação de Camilo Bassi, economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O crédito cria poder de compra, é flexível e alcança diversos setores. É mais eficiente do que ampliar despesas correntes, como gastos com pessoal, mas, naturalmente, traz riscos”, diz.

Segundo o economista, além da possibilidade de inadimplência, o desenho das operações produz efeitos fiscais que nem sempre ficam evidentes. “Usar recursos primários para financiar despesas financeiras gera um descompasso contábil que compromete o resultado primário. O governo escamoteia parte dos efeitos fiscais ao enfatizar apenas os benefícios econômicos das medidas.”

Na avaliação de Bassi, outro efeito relevante é a flexibilização indireta da chamada regra de ouro, que impede a União de emitir dívida para financiar despesas correntes. Como os programas de crédito são classificados como inversões financeiras, eles ampliam as despesas de capital e aumentam a margem para contratação de novas operações de crédito. “Ao elevar as inversões financeiras, o governo amplia sua capacidade de endividamento. Na prática, isso torna a regra de ouro mais flexível.”

Além das dúvidas sobre os efeitos fiscais, economistas avaliam que a expansão das linhas de crédito torna mais difícil o controle da inflação e aumenta a preocupação com a trajetória da dívida pública.

Outra medida relevante do pacote é o financiamento para compra de caminhões e ônibus por empresas e caminhoneiros, com custo estimado em R$ 14,5 bilhões, integralmente bancado com recursos livres do Orçamento.

Também houve ampliação das operações do Minha Casa, Minha Vida. A previsão inicial de R$ 24,8 bilhões subiu para R$ 44,8 bilhões, financiados com recursos do Fundo Social e do Orçamento.

Para Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro Nacional e atual head de macroeconomia do ASA, o conjunto das medidas amplia o desafio do Banco Central para controlar a inflação, reforça as preocupações com a sustentabilidade da dívida pública e reduz a transparência da política fiscal.

No caso do financiamento de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativo e taxistas, Bittencourt observa que, embora os empréstimos sejam pagos pelos beneficiários, o Tesouro arcará com um custo estimado em R$ 8 bilhões, decorrente dos subsídios e do risco de inadimplência. “É um programa que, ao fim e ao cabo, vai custar mais do que o Farmácia Popular e o Gás do Povo em um ano”, observa.

Segundo o economista, o problema não está necessariamente na legalidade das operações, mas na forma como os custos aparecem nas contas públicas.

“Há uma parcela crescente da política fiscal executada de forma menos transparente. Não estou dizendo que exista irregularidade, mas, quando o governo implementa políticas públicas por meio de subsídios implícitos, torna-se muito mais difícil acompanhar o custo efetivo dessas iniciativas”, argumenta.

Na avaliação de Bittencourt, os efeitos desse modelo de estímulo já aparecem tanto na comunicação do Banco Central quanto na evolução da dívida pública. Ele lembra que a autoridade monetária tem sinalizado dificuldades para aprofundar o ciclo de queda dos juros, enquanto a dívida líquida do setor público atingiu 67,9% do PIB em maio, o maior nível da série recente.

“O governo cumpre formalmente a meta fiscal e respeita o arcabouço. Mas a lógica econômica é inevitável: esses custos acabam aparecendo na dívida bruta ou na dívida líquida. E é justamente a dívida líquida, que reflete melhor esse tipo de operação, que vem batendo recordes desde janeiro de 2025”, afirmou Bittencourt. Com informações do portal Estadão.

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