Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Por Fabio L. Borges | 5 de janeiro de 2026
Se a gente não administra a própria vida, o Ano Novo não começa
Foto: DivulgaçãoEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Após esta virada de ano, li um texto que mexeu muito comigo. Ele me fez enxergar pedaços de mim, dos meus ruídos, dos meus silêncios e dos meus rituais.
Esse texto foi escrito por um amigo que carrega o mundo nas lentes e na sua alma: Duda Hawaii, fotógrafo profissional de surf, cidadão de aeroportos e oceanos, um verdadeiro poeta da fotografia. De certa forma, ele foi meu “muso inspirador” aqui.
Duda escreveu que “o fim do ano não é uma data, é um fenômeno psicológico coletivo”, e isso grudou em mim como chiclete no cabelo. É exatamente isso: a gente suspende a realidade por algumas horas e chama de festa.
O calendário vira álibi, como ele diz. O cérebro projeta recomeços para não lidar com mudanças e com a dura realidade da vida.
A gente sofre o ano inteiro e ativa o mecanismo do “eu mereço”: mereço gastar, mereço exagerar, mereço esquecer das bases que me atormentaram durante o ano inteiro…
E tudo isso é humano. Há algo bonito no ritual da virada. Os relógios zeram, abraços se atravessam, promessas se repetem como roupa velha.
A mesa fica grande, as taças se erguem, as expectativas crescem um pouco mais do que a conta bancária permite… e mesmo assim seguimos. No fundo, é o nosso jeito de dizer: “Eu sobrevivi e sigo em frente”.
Mas o Duda cutucou mais fundo quando escreveu que o problema não é o Réveillon, é o que ele revela. Revela uma sociedade que confunde passagem do tempo com transformação, e uma mente que prefere símbolos a escolhas.
Ele tem razão: o inconsciente não entende datas… entende repetição. Trocar o número do calendário não muda caráter, hábito, saúde, situação financeira ou coragem.
Mudança real exige reflexão interna, e isso dói. Dói porque crescer machuca.
E é aqui que o meu texto encontra o dele. Para muita gente, o Ano-Novo é barulho, riso, reencontro, mesa cheia e fogos no céu.
E está tudo certo. Outros preferem um sofá, um jantar simples, uma oração curta, um caderno com planos, menos brilho e mais raiz. Não é tristeza, é serenidade. É entender que felicidade não solta fogos: cria raiz.
Não aparece em fotos, não faz contagem regressiva, não grita. Ela fica. E há também outro lado que quase ninguém gosta de olhar: depois dos fogos, depois do álcool, depois da música alta, vem a realidade, e ela volta do jeito que é. Para alguns, volta leve; para outros, volta cobrando.
Há gente acordando com dor de cabeça e há gente acordando com dor de vida. Uns iniciam o ano com churrasco, risos e abraços. Outros iniciam com faltas, dívidas, ausências, solidões, dores e pedidos que ninguém quer mais ouvir.
E não é sobre julgamento, é sobre consequência das próprias escolhas. Se a gente não administra a própria vida, o Ano Novo não começa: ele apenas reimprime o velho.
Alguns precisam de barulho para suportar o silêncio por dentro. Outros, quando encontram paz, descobrem que não precisam mais de barulho nenhum, preferem a paz.
E todos estão tentando o mesmo: continuar vivendo. Há quem comemore rodeado de gente. Há quem comemore ajudando alguém que ama. Há quem comemore guardando dinheiro, reorganizando a vida. Há quem apenas respire fundo e diga: “Agora vai”.
Porque, no fim das contas, Ano Novo não é calendário. Não é fogos. Não é taça levantada. Ano Novo de verdade começa quando a gente atravessa, de dentro de nós para dentro de nós mesmos.
Quando pararmos de viver para impressionar os outros e começarmos a viver para fazer sentido para quem amamos. Só assim a virada, enfim, acontece de verdade.
Uns celebraram o Ano-Novo. Outros celebraram as pessoas que amam. Outros fizeram as duas coisas ao mesmo tempo. E todos estavam certos.
O importante não é o barulho nem o silêncio. É se, por um instante que seja, você se reencontrar lá dentro, só aí você poderá encontrar a resiliência.
Feliz 2026! Que os fogos que estouraram no céu tenham deixado em você lembranças bonitas, mas que a raiz plantada dentro de você, através desse texto, seja ainda maior.
* Fabio L. Borges, com inspiração e trechos de Duda Hawaii, “O Poeta da Fotografia”
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.