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Brasil Os embates do governo Bolsonaro irritam os militares e desperdiçam tempo

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Ministros do Palácio do Planalto que tiveram resultado negativo decidiram trabalhar normalmente. (Foto: Agência Brasil)

Em quatro meses, o governo de Jair Bolsonaro se dividiu em duas trincheiras, em que o pragmatismo dos militares vem se chocando com o lado ideológico do Palácio do Planalto, em um movimento que tem assustado aliados, paralisado o governo e irritado os generais.

Fontes ouvidas pela Reuters confirmam a sensação de paralisia que nem mesmo a aprovação da reforma da Previdência na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara consegue apagar.

“Não é apenas uma sensação, é um fato. Estamos perdendo tempo, a economia parada, o desemprego aumentando e a gente discutindo besteira”, disse à Reuters uma fonte com trânsito entre os generais palacianos.

O cerne da divisão, apontam as fontes, são as dificuldades causadas pelo excesso de ideologia que cerca o núcleo civil do presidente.

Ao formar o governo, Bolsonaro se cercou de militares da reserva em vários cargos considerados chave. No Planalto, os ministros do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, são generais da reserva, assim como o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Floriano Peixoto.

No entanto, influenciado pelos filhos, o presidente deu espaço a nomes ligados ao escritor Olavo de Carvalho, jocosamente chamados de “olavetes” dentro do governo.

Estão nessa lista o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o primeiro ministro da Educação, Ricardo Vélez, e seu sucessor, Abraham Weintraub e, principalmente os filhos de Bolsonaro, Carlos, Eduardo e Flávio, e o assessor especial da Presidência, Felipe Martins.

Até agora, os militares têm conseguido frear iniciativas que consideram mais danosas ao governo, como a ideia apresentada por Bolsonaro ainda na campanha eleitoral de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém ou de apoiar uma intervenção armada na Venezuela.

Dentro do grupo militar, no entanto, a frustração por não conseguir avançar em uma agenda mais pragmática vem se avolumando.

“Os militares estão insatisfeitos porque estão vendo os erros e não são ouvidos em nada. Tudo é à revelia”, disse uma fonte com relações na alta cúpula do governo. “Acho que os militares não podem deixar isso continuar, precisam ser mais duros. Afinal, o governo está associado também à imagem deles.”

Uma outra fonte explica que a questão ideológica vem bloqueando algumas ações de governo e a própria interlocução de Bolsonaro com o Congresso e outras forças da sociedade —o que afeta diretamente as negociações no Legislativo.

“Muita gente procura o Planalto e não consegue interlocução, porque pode ser vinculada a alguma coisa que eles não querem se associar. Mas ele não é o presidente de quem votou nele, é o presidente de 200 milhões de brasileiros”, disse a fonte.

Um dos auxiliares mais próximos de Bolsonaro, Santos Cruz, mostra também alguma irritação com o excesso de ideologia no governo. Ao ser perguntado se isso deveria ser deixado de lado, respondeu: “Completamente. Todo fanatismo é burro, não é?”

O próprio ministro já foi alvo do escritor Olavo de Carvalho, o guru dos ideológicos governistas. Ao ser criticado pelo ministro, Carvalho usou as redes para uma onda de ataques ao general, inclusive dizendo que Santos Cruz “não presta”.

À Reuters, o ministro negou que haja “alas” no governo.

“Em primeiro lugar eu acho que não existe grupo militar. Em segundo, classificar alguém como ‘olavete’ é uma classificação medíocre. Eu não vejo um grupo militar, mas o outro eu também não reconheço como grupo, acho que nem existe”, afirmou.

Santos Cruz reconhece, no entanto, que o governo tem perdido tempo com ruídos vindos de um radicalismo excessivo.

“Está tendo muito ruído de periferia. No centro das coisas até que as coisas estão funcionando. Uma coisa é olhar o núcleo, a outra é olhar a periferia que está causando ruído, por pessoas até sem expressão, mas que continuam com radicalismo irracional. Então você tem brigas e ataques”, disse.

“A rede é um canal aberto. É diferente quando você tinha mídia tradicional. Quando a campanha acabava, o recurso técnico acabava. Agora não, a campanha continua, todo mundo continua discutindo a mesma coisa, continuam brigando, todo mundo critica todo mundo, quem ajudou na campanha acha que pode continuar dando opinião no governo”, analisou.

Desde que Bolsonaro assumiu a Presidência, o governo passa por crises periódicas e outras mais permanentes. Até hoje não conseguiu, por exemplo, resolver a interlocução com o Congresso. A aprovação da reforma na Previdência na CCJ, comemorada no Planalto, é vista por líderes mais experientes no Congresso como um sinal ruim.

 

 

 

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