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Mundo Os Estados Unidos anunciaram uma doação recorde para um laboratório britânico; em troca, exigem a transferência de tecnologia e entrega de 300 milhões de doses de vacina contra o coronavírus

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Doença muito nova gera incerteza sobre tempo de imunidade após a infecção. (Foto: Divulgação)

Xi Jinping (China), Emmanuel Macron (França), Angela Merkel (Alemanha) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) desejam que qualquer vacina contra o novo coronavírus seja um “bem público mundial”, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem outra prioridade: vacinar todos os seus compatriotas.

Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (21), uma doação recorde de US$ 1,2 bilhão para o laboratório britânico AstraZeneca, que desenvolverá a eventual vacina na Universidade de Oxford, com a condição de uma transferência de tecnologia aos EUA e a entrega de 300 milhões de doses.

Por trás do princípio do “bem público mundial”, existem, na verdade, dois problemas distintos: a propriedade intelectual e a distribuição das primeiras doses. O primeiro pode ser mais fácil de resolver do que o segundo.

A vacina provavelmente não será gratuita. Em relação ao preço, vários grupos se comprometeram a cobrir apenas os custos de produção.

Mas a promessa do preço de custo é relativa. Isso foi feito no passado para tratamentos contra o HIV, afirma Matthew Kavanagh, da Universidade de Georgetown, mas os fabricantes de medicamentos genéricos descobriram mais tarde que seus custos reais eram de um décimo ou até menos, o que demonstra que há uma margem negligente para a definição dos preços de custo.

Para Mark Feinberg, ex-diretor científico da MerckVaccines e atual presidente da International AIDS Vaccine Initiative, os laboratórios aprenderam a lição e não querem ser “párias”, o que prejudicaria a sua reputação e lucratividade.

Feinberg acredita que a troca de propriedade intelectual acontecerá de qualquer maneira. Como “ninguém pode responder sozinho à demanda mundial, serão obrigados a encontrar sócios para fabricar o produto”, afirma.

A pergunta incômoda é: quais dos 7,6 bilhões de habitantes do planeta serão vacinados primeiro?

EUA primeiro

A OMS, Europa e organizações não-governamentais envolvidas no combate à covid-19 querem estabelecer um mecanismo inédito de distribuição “igualitária”, que tenha como prioridade a vacinação das equipes de saúde de todos os países afetados e, depois, dos trabalhadores essenciais (polícia, transporte…), antes do restante da população.

Mas para Trump, ansioso para voltar à normalidade, a solidariedade internacional não é algo que lhe tira o sono: seu governo tem o objetivo – altamente hipotético, pois os testes clínicos estão apenas começando – de ter 300 milhões de doses em janeiro, para vacinar todos os americanos.

“Sua mentalidade é muito insular, muito xenófoba, o exato oposto do que se precisa para controlar uma pandemia”, opinou Sten Vermund, reitor da escola de saúde pública de Yale.

O fato é que o governo Trump investiu centenas de milhões de dólares desde fevereiro em quatro vacinas experimentais (Johnson & Johnson, Moderna, Sanofi, Oxford/AstraZeneca), com a esperança de que uma ou mais tenha êxito e seja fabricada nos Estados Unidos.

A coalizão público-privada Cepi, lançada em 2017 em resposta ao fracasso inicial contra o Ebola, investiu US$ 500 milhões em nove empresas que desenvolvem vacinas contra a covid-19. Em troca, exige que compartilhem as tecnologias para uma produção maciça e rápida.

Assim, subsidiados, os laboratórios constroem linhas de produção adicionais sem esperar pelos resultados dos testes clínicos.

Empresas estão se unindo. A Moderna poderá produzir nos EUA (para o mercado americano) e na Suíça (para a Europa). O Sanofi fez parceria com um concorrente, GSK; os dois gigantes têm diversas fábricas em ambos os lados do Atlântico.

Deste modo, para vacinar o planeta, resta esperar que várias vacinas, e não apenas uma, tenham sucesso.

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