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Mundo Os Estados Unidos têm corrida de imigrantes à fronteira

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O governo americano promete investigar as alegações de violência contra os imigrantes mas vem acelerando as deportações. (Foto: Office of the Inspector General/DHS)

No mesmo dia em que assumiu a Casa Branca, Joe Biden enviou ao Congresso um esboço da Lei de Cidadania, projeto ambicioso que, caso aprovado, garantirá o green card para a maioria dos cerca de 11 milhões de imigrantes que vivem irregularmente nos EUA. O democrata não se restringiu ao projeto, que deve passar por um longo caminho até ser votado. Ele reverteu diversas medidas anti-imigração de Donald Trump, incluindo a que obrigava os solicitantes de asilo a esperarem o exame dos seus casos no México.

Esse conjunto de medidas levou a uma corrida sem precedentes à fronteira. Só em fevereiro, foram detidos quase 100 mil migrantes sem documentos, o maior número de detenções neste mês desde 2006. Ao mesmo tempo, centenas de solicitantes de asilo que haviam sido enviados ao país vizinho estão voltando para os EUA, numa marca que chega a 300 pessoas por dia.

Pelos chamados Protocolos de Proteção ao Migrante (MPP, na sigla em inglês) — aceitos pelo presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador em 2019, depois que Trump ameaçou impor tarifas de importação a produtos do país —, mais de 57 mil imigrantes não mexicanos foram enviados ao país vizinho. No início de 2020, o republicano incluiu brasileiros na medida.

Biden ainda anunciou que iria retomar o programa Menores da América Central (CAM), que, entre 2014 e 2017, permitiu que crianças fugindo da violência naquela região pudessem permanecer no país. Ao mesmo tempo, ordenou a paralisação da construção do muro de Trump, criou uma força-tarefa para reunir crianças separadas de suas famílias, suspendeu as deportações por 100 dias e permitiu que os “dreamers”, jovens que chegaram aos EUA quando crianças, tenham acesso a financiamento imobiliário.

No afã de reverter rapidamente os estragos causados pelos últimos quatro anos, no entanto, o presidente esbarra com problemas que não consegue resolver em curto prazo. Uma das questões mais urgentes é o número de crianças desacompanhadas, a maioria delas vinda de países da América Central, que cresceu rapidamente nas últimas semanas. Em janeiro, seu primeiro mês no governo, mais de 5.800 menores foram apreendidos, um aumento de mais de mil casos em relação a outubro de 2020.

Com isso, de acordo com dados obtidos pela CNN, milhares de crianças que cruzaram a fronteira estão agora sob custódia da Patrulha de Fronteira dos EUA por mais de quatro dias, em média, em instalações impróprias para menores. Os abrigos federais, por sua vez, estão cada vez mais lotados. E, com a crise sanitária causada pela pandemia do coronavírus, há um risco de contaminação ainda maior para crianças e funcionários se os locais atingirem a lotação máxima.

Se para parte da opinião pública as medidas de Biden são vistas como uma tentativa de abrir as portas, politicamente, o presidente também está em uma sinuca de bico. Por um lado, republicanos alegam que o presidente está encorajando migrantes a fazerem a perigosa jornada para tentar chegar a cidades-santuário, onde agentes migratórios são proibidos de deter estrangeiros sem documentos. Por outro, alguns democratas reclamam que Biden não está agindo rápido o suficiente para libertar as crianças da custódia da Patrulha de Fronteira e criticam Biden por manter algumas das políticas de Trump. Um exemplo foi a reabertura recente de um abrigo de emergência no Texas que era utilizado no governo anterior.

Uma reforma migratória semelhante à enviada por Biden ao Congresso já havia sido impulsionada durante o governo de Barack Obama, de quem ele foi vice-presidente, mas acabou não sendo aprovada. À época, no entanto, para tentar garantir os votos necessários à medida, Obama adotou uma linha bem mais dura que o atual presidente, deportando um número recorde de sem papéis. Com as recentes medidas, Biden trilha um caminho inverso. Por isso, para analistas, ainda é cedo para saber se a nova Lei de Cidadania terá apoio bipartidário suficiente para passar pela Câmara.

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