Terça-feira, 04 de Agosto de 2020

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Capa – Caderno 1 Os EUA e a China já estão se preparando para uma guerra comercial

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A China e os Estados Unidos travam uma guerra comercial. (Foto: Reprodução)

A Casa Branca prepara atualmente os mesmos armamentos pesados – uma combinação de tarifas e cotas de importação – e os aponta, principalmente, contra as importações vindas da China. Quase tudo está na mira dos EUA, de produtos siderúrgicos e painéis solares a lavadoras de roupa. O superávit comercial recorde da China com os EUA, anunciado na semana passada, é o possível catalisador das hostilidades, após um ano de ameaças do presidente Donald Trump.

Não é certo que haverá a guerra comercial, mas, se houver, não vai se parecer em nada com as batalhas dos anos 80 contra semicondutores, carros e TVs japoneses.

As forças são mais equilibradas desta vez: os EUA nunca entraram num conflito comercial contra um rival como a China, em termos de tamanho econômico, capacidade industrial e ambição global.

O Japão era um aliado dos EUA, enquanto a China é cada vez mais um rival. Isso amplia o risco de uma escalada olho por olho, dente por dente, especialmente porque o apoio a Pequim vem perdendo força tanto no espectro político dos EUA quanto entre a comunidade empresarial americana, que tradicionalmente era forte defensora do comércio com a China.

Na batalha que vai se delineando, alimentada pelo protecionismo dos dois lados (o lema America First, de Trump, tem seu contraponto no Sonho Chinês, do presidente Xi Jinping), cada lado exagera as suas próprias vantagens.

“Há uma guerra comercial se aproximando em razão do fanatismo ideológico e das estimativas absolutamente contraditórias de quem leva mais vantagem”, diz Scott Kennedy, especialista em política industrial no Center for Strategic and International Studies, um instituto de Washington.

Os mercados internacionais parecem estar amplamente despreparados para o que pode se tornar um choque de titãs. Sem contar a ameaça nuclear da Coreia do Norte, o maior estraga-prazeres econômico de 2018 seria uma guerra comercial entre China e EUA.

Uma vez iniciada uma guerra comercial, os efeitos poderão ser sentidos bem além das fronteiras dos combatentes. Os primeiros danos colaterais seriam vistos entre os aliados dos EUA nas cadeias de fornecimento. A China ainda é, em grande medida, o ponto final de montagem de componentes de alta tecnologia importados do Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

Se a guerra sofrer uma grande escalada, poderia derrubar toda a arquitetura do comércio mundial. Esse pode, de fato, ser o objetivo de Trump. Seu ponto de vista de longa data é que um dos maiores erros já cometidos pelos EUA foi guiar a China para a Organização Mundial do Comércio em 2001, capacitando um concorrente. Assessores dizem que ele regularmente ameaça deixar a entidade.

No passado, Trump sinalizou que a ajuda dos chineses na questão da Coreia do Norte poderia levar os EUA a não adotar medidas comerciais. Em telefonema com o presidente dos EUA ontem, Xi disse que problemas comerciais devem ser resolvidos “tornando maior o bolo da cooperação”, segundo relatou a agência Xinhua.

Reservadamente, no entanto, autoridades chinesas ressaltam os pontos fortes táticos de Pequim. Alguns são culturais: o povo chinês, diz uma autoridade, lida melhor com sabores “amargos”, isto é, consegue suportar adversidades. A percepção de que há uma intimidação por parte dos EUA vai unir a população ainda mais em torno do Partido Comunista, argumentou a autoridade, enquanto a posição dos EUA vai dividir os americanos entre os que são a favor e contra às hostilidades comerciais.

Empresas como Boeing, General Motors e Apple estão na categoria dos que se opõe a hostilidades.

Outra grande diferença entre a China e o Japão é que o mercado japonês estava em grande parte fechado às empresas dos EUA nos anos 1980, enquanto a China é relativamente aberta, e essas empresas dependem fortemente das vendas na China, de forma que acabariam reféns em qualquer conflito.

Enquanto a Casa Branca luta para preparar uma estratégia coerente – Trump ainda está amarrado pelo Congresso dos EUA- a China tem um plano detalhado para uma guerra comercial e flexibilidade total para empreendê-lo. Uma mudança de preferência em favor de mais compras da Airbus seria uma jogada óbvia. Diversificar o fornecimento de soja, outra.

Eventuais medidas chinesas de retaliação seriam altamente direcionadas – Estado por Estado, distrito por distrito – para infligir o máximo possível de perda de empregos nos EUA e para distinguir como alvo os políticos mais exaltados a favor da medidas comerciais.

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