Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 19 de julho de 2017
A percepção manifestada por empresários e até pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de que a economia está descolada da crise política não é a mesma do brasileiro. Pesquisa do SPC Brasil, feita com 801 pessoas, em junho, mostra que 82% dos entrevistados avaliam negativamente as condições atuais da economia brasileira. Desse total, 51% afirmaram que fatores como escândalos de corrupção e mau uso do dinheiro público contribuem para este quadro.
Outros 17% consideram o desempenho da economia regular e apenas 1% disseram que o cenário é positivo. A sondagem também descobriu que 40% estão pessimistas com o futuro da economia nos próximos seis meses.
Para justificar o pessimismo, os entrevistados apontam a desconfiança com a representação política: mais da metade desses entrevistados (53%) cita a corrupção, a incompetência dos governantes e a falta de punição dos políticos como a principal razão de seu desalento.
A economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, avalia que a manutenção da equipe econômica dá mais segurança aos investidores, mas que só isso não garante a retomada da economia.
“Teríamos uma contaminação maior se a equipe econômica fosse alterada ou corresse esse risco. Mas manter a equipe econômica não é a única coisa que segura a economia. A pesquisa foi feita em junho, depois do agravamento da crise política e isso com certeza vai influenciar o comportamento do consumidor nas compras de longo prazo e na tomada de crédito”, analisa a economista.
Além disso, diz ela, quem investe também deve seguir com o pé no freio por mais tempo.
“Apesar da trajetória de queda da inflação, ainda existe uma percepção ruim do impacto da alta recente dos preços. O orçamento continua mais apertado porque, com a inflação acima da meta por muito tempo, você demora pra devolver as perdas do passado”, explica Kawauti.
A economista diz que mesmo antes do agravamento da crise política havia uma cautela do consumidor. “Antes, as expectativas estavam concentradas numa recuperação já no segundo semestre, mas isso ficou pro final ano ou começo do ano vem.”
Esse sentimento se reflete nas previsões de crescimento econômico feitas pelos bancos. As duas principais instituições privadas do país, por exemplo, já revisaram para baixo suas previsões para o PIB este ano. O Bradesco rebaixou de um crescimento de 0,3% para zero este ano, enquanto o Itaú Unibanco que tinha uma previsão otimista de alta de 1% do PIB agora estima expansão de apenas 0,3%.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, observa que a crise política afetou menos do que se esperava no curto prazo, mas pode afetar a economia mais do que se imaginava no longo prazo.
“Crises políticas desse tamanho, pela incerteza que geram, podem causar enormes danos na economia. Mas a agenda segue sendo positiva e isso é importante para assegurar a continuidade da recuperação”, diz o economista, que avalia que o País não deve voltar à recessão.
Para ele, a maior preocupação agora é com 2018. “Os riscos políticos são enormes enquanto não aparecerem candidatos coerentes e reformistas. O risco de manutenção da agenda a partir de 2019 é que vai dar o tom da discussão nesse semestre e isso potencialmente afeta expectativa de investimento e consumo”, diz Vale.
O economista Thiago Xavier, da consultoria Tendências, lembra que entre janeiro e maio, antes das delações de executivos da JBS, havia uma certa trajetória de reação da economia, que foi abalada antes mesmo de ganhar alguma velocidade.
“Apesar das oscilações, estava em curso uma predominante melhora. Isso era mostrado pelos indicadores, principalmente os que indicavam expectativa. Isso ficou um pouco afetado depois das delações. As pesquisas de junho que avaliaram índices como o de confiança já trouxeram números negativos. Ainda é difícil avaliar o quanto a economia foi contaminada e qual a duração disso”, disse.
Para Xavier, mesmo com fatores positivos como a inflação e a taxa de juros em queda, o ritmo de afrouxamento monetário não é suficiente para a retomada da confiança.
“Quem está desempregado, não arrisca e, quem se manteve empregado, teve perda real no salário durante o ano passado. Boas notícias econômicas aparecem, mas a gente ainda vive um cenário conturbado”, concluiu. (Chico Prado e João Sorima Neto/AG)
Os comentários estão desativados.