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Colunistas Pare de se iludir com os falsos videntes – Parte 01

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O falso vidente não precisa acertar tudo. Basta acertar algumas afirmações para que você esqueça todas as outras que estavam erradas

Foto: Divulgação
O falso vidente não precisa acertar tudo. Basta acertar algumas afirmações para que você esqueça todas as outras que estavam erradas. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Tenho 27 anos de profissão e, entre todas as experiências que adquiri ao longo da minha carreira, poucas me ensinaram tanto sobre o comportamento humano quanto a chamada leitura fria.

Talvez esse nome nunca tenha chegado aos seus ouvidos. Mas, certamente, ela já chegou ao seu bolso…

A leitura fria nasceu há muitos séculos, sendo aperfeiçoada entre povos ciganos, mestres na arte de observar pessoas. Com o tempo, foi refinada por mágicos, mentalistas, estudiosos da comunicação e especialistas em comportamento humano.

Ela não é boa nem ruim. Tudo depende de quem a utiliza…

Hoje, seus princípios são aplicados em vendas, negociação, marketing, entrevistas, relações interpessoais e análise comportamental. Pouca gente sabe que recursos semelhantes chegaram a ser estudados por serviços de inteligência.

A CIA, por exemplo, contratou o ilusionista John Mulholland para desenvolver técnicas destinadas ao treinamento de agentes. Conceitos semelhantes também aparecem na formação de negociadores, investigadores e profilers do FBI.

O problema começa quando alguém vende técnica como se fosse um dom sobrenatural. No início dos anos 2000, tive o privilégio de trabalhar ao lado do mágico Kronnus, um dos maiores nomes do mentalismo brasileiro. Foi uma verdadeira pós-graduação sobre comportamento humano.

Na mesma época, existia um famoso desafio internacional criado pelo ilusionista americano James Randi, oferecendo um milhão de dólares para quem comprovasse possuir poderes paranormais sob condições rigorosamente controladas. Até hoje, ninguém conseguiu…

James Randi nomeou Kronnus como seu representante oficial no Brasil. Dessa parceria nasceu, em 2002, no Fantástico, o Desafio Paranormal, que revelou ao público como muitos supostos fenômenos sobrenaturais podiam ser reproduzidos através do ilusionismo, do mentalismo e da leitura fria.

Na ocasião, Kronnus desmascarou o pseudo-paranormal Thomaz Green Morton, o famoso Homem do Rá, um dos casos mais emblemáticos da televisão brasileira.

O sucesso foi tão grande que, naquele mesmo ano, Kronnus foi contratado com exclusividade pelo Domingão do Faustão, algo que marcou época, tornando-se um dos grandes nomes do mentalismo na televisão brasileira.

Anos depois, o Fantástico voltaria ao tema com a “Operação Bola de Cristal”, entre outros quadros, experiência da qual participei nos bastidores. Mas essa história ficará para a próxima semana.

Antes, quero que você faça um pequeno teste. Veja se alguma destas frases parece falar exatamente sobre você.

“Você é uma pessoa muito observadora.”

“Você tem um bom coração.”

Quem, em sã consciência, vai admitir que é um canalha?

“Você percebe falsidade nas pessoas.”

“Às vezes, cansa de ser forte.”

“Você já teve dinheiro nas mãos e acabou desperdiçando parte dele por confiar demais em alguém ou simplesmente por uma decisão impulsiva.”

Vamos ser sinceros… Quem nunca fez alguma bobagem com dinheiro?

Agora, a revelação…

Essas frases não foram escritas pensando em você. Foram escritas pensando em praticamente todo mundo. Esse fenômeno psicológico recebe o nome de Efeito Barnum, também conhecido como Efeito Forer.

Ele acontece quando recebemos descrições vagas e universais, mas temos a impressão de que foram feitas exclusivamente para nós. É exatamente esse mecanismo que aparece em muitos horóscopos, testes de personalidade da internet e nas consultas de inúmeros pseudo-videntes.

Não é magia. É observação. É probabilidade. É psicologia. É leitura fria…

O falso vidente não precisa acertar tudo. Basta acertar algumas afirmações para que você esqueça todas as outras que estavam erradas.

Não escrevo esta crônica para atacar a espiritualidade de ninguém. Meu alerta é outro. Existem profissionais sérios, como psicólogos e terapeutas. Também existem pessoas cuja espiritualidade é reconhecida por muitos. Mas existem, igualmente, aqueles que transformam sofrimento, medo, saudade e esperança em negócio.

Conhecer essas técnicas é a melhor forma de não ser manipulado. Existe, porém, uma ironia interessante. As mesmas técnicas utilizadas por charlatões para enganar pessoas também são ensinadas por Kronnus em palestras e treinamentos para empresas, mostrando como a observação do comportamento humano pode fortalecer vendas, liderança, negociação, marketing e relações interpessoais.

A diferença nunca esteve na técnica. Sempre esteve nas mãos de quem a utiliza.

Na próxima semana, vou levá-lo aos bastidores da “Operação Bola de Cristal”, mostrar como um ator convenceu dezenas de pessoas de que possuía poderes paranormais e, principalmente, revelar como parte dessas mesmas técnicas pode ser utilizada de forma ética para melhorar sua comunicação, seus relacionamentos e sua capacidade de compreender as pessoas.

E, até lá, permita-me fazer uma última previsão. Estou “sentindo” daqui que você é uma pessoa inteligente, observadora e de bom coração.

Também percebo que, em algum momento da sua vida, você já perdeu dinheiro por confiar demais em alguém ou por tomar uma decisão impulsiva.

E tenho quase certeza de que, quando terminar esta leitura, vai lembrar de alguém que vive compartilhando horóscopos, testes de personalidade ou vídeos de pseudo-videntes nas redes sociais.

Acertei? Relaxe… Não foi paranormal. Foi apenas o velho, eficiente e perigosamente convincente Efeito Barnum funcionando exatamente como deveria.

Meus agradecimentos ao Mágico Kronnus por ter colaborado com essa crônica.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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