Quinta-feira, 24 de Setembro de 2020

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Magazine Pela primeira vez, Chico Buarque diz que tem muitas reservas ao PT

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“A não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo prêmio Camões", declarou o cantor. (Foto: Reprodução/Instagram)

Pela primeira vez, Chico Buarque diz que tem muitas reservas ao PT. A afirmação foi feita em entrevista ao jornal francês Le Monde, em Paris, onde o cantor, compositor e escritor está escrevendo, como faz com frequência. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Diferente de 1969

A situação é diferente da vivida em 1969, quando esteve exilado na França. “Simplesmente porque em Paris estou mais tranquilo, tenho mais tempo, por exemplo, para me concentrar em escrever o livro que comecei no início deste ano. Em 1969, havia um regime militar no poder, com perseguição concreta e direta dos artistas”, relatou.

Desprezo pela cultura

O artista explicou que hoje os artistas brasileiros não são bem-vindos, nem bem vistos pelo governo. “Uma cultura de ódio se espalhou de maneira impressionante.”

Chico contou que o novo governo despreza totalmente a cultura. Mas diz que, apesar do pedido de visto francês, quer continuar a viver no Brasil. “Não posso viver longe de meu País”, afirmou.

Crise e governos do PT

Questionado sobre a atual crise política no Brasil, Chico disse que ela vem de longe, concretamente a partir do impeachment de Dilma Rousseff.

“Tenho muitas reservas ao PT, o partido teve episódios de corrupção, como os governos precedentes”, afirmou. “Mas depois da derrota da direita nas eleições presidenciais, o PT foi incrivelmente estigmatizado.”

A respeito dos erros cometidos pelo PT, Chico falou que o partido renunciou a muitos de seus ideais, pois Lula estava cansado de perder eleições.

“Ele decidiu fazer do PT um partido de governo. Por isso fez concessões, acordos com forças que o PT não teria aceito em tempos normais. O PT deixou de ser um partido de esquerda para se tornar uma formação social-democrata.”

Novo governo

Sobre o atual governo, Chico disse que ele pode ser considerado como neofascista, por compartilhar muitas práticas com os regimes de direita.

O artista cita as incongruências, como a influência de Olavo de Carvalho sobre Jair Bolsonaro, ou um “ministro da Educação contra a educação” e “um ministro do Meio Ambiente contra o meio ambiente”, além de um chanceler “louco”. “Esse homem vai contra a história de excelência da diplomacia brasileira”, disse.

“Às vezes me digo que é melhor não ter ministro da Cultura neste governo. A cultura já é atacada de toda parte, se tivesse um ministro, a situação seria ainda pior”, acrescentou Chico.

O artista diz que as mobilizações fora do Brasil contra o governo Bolsonaro são válidas, mesmo sendo difícil medir a eficácia dessas iniciativas. “O prestígio do Brasil hoje é quase zero no exterior.”

“Não sei como tudo isso vai acabar. O fracasso desse governo me parece óbvio”, declarou.

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