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Brasil Política externa busca normalização em cenário frágil

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O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira. (Foto: Arthur Max/AIG-MRE)

A crise política e econômica que se abateu sobre o País a partir de 2016 contaminou a política externa brasileira, e precisa ser normalizada, mesmo em cenário frágil. A próxima eleição será decisiva para os rumos do Brasil em vários aspectos, mas um dos menos observados é a política externa, historicamente relegada a segundo plano em eleições.

Em um limbo desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, as relações exteriores brasileiras minguaram. O Brasil perdeu chances de conquistar espaço no cenário internacional. Agora, está em busca de uma agenda de política externa possível e viável – e o próximo presidente terá pouco tempo para colocar uma nova agenda em prática.

“O próximo governo vai esbarrar em um dos cenários externos mais desafiadores para o Brasil em décadas e, por isso, será necessário construir uma agenda propositiva e realista”, afirmou ao jornal Estado de S. Paulo o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, coordenador da Escola de Ciências Sociais da FGV (Fundação Getulio Vargas).

A expectativa de elevação da taxa de juros nos Estados Unidos tornará mercados emergentes menos atraentes para investidores. A recuperação dos preços das commodities ocorreu, mas de forma tímida. O Brasil é altamente dependente de um conjunto funcional e previsível de regras e normas globais, que organizam a política internacional, que está erodindo no mundo todo. Por fim, a crise na Venezuela roubará espaço na agenda de discussões internacionais do Brasil. Quem quer que seja eleito terá de lidar com questões sobre o vizinho em encontros em Washington ou Bruxelas.

Uma agenda viável incluiria conversas bilaterais sobre acordos comerciais, negociações sobre redução de tarifas. Segundo analistas, a aproximação com Washington e o reforço dos laços com os Brics também são questões que não podem faltar numa agenda externa brasileira. Um projeto com foco na área econômica, com engajamentos prioritários para concluir o Acordo do Mercosul com a União Europeia e aproximar o Brasil e o Mercosul da Aliança do Pacífico, e a tentativa de expandir os acordos em foros multilaterais.

A dificuldade em se estabelecer uma agenda simples decorre dos altos e baixos que o Itamaraty enfrentou na última década. Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu, a política externa brasileira estava traçada por Fernando Henrique Cardoso: o destino do Brasil seria se tornar uma potência regional.

Esse sonho, acalentado com certo grau de megalomania por Lula, foi escanteado por Dilma Rousseff e definitivamente enterrado com a recessão econômica, a partir de 2015, o impeachment e as dificuldades enfrentadas, na sequência, pelo presidente Michel Temer. De pretensa potência global em 2009, o Brasil passou a mero líder regional e, agora, nem isso.

Do “imperialismo brasileiro”, com negociações multilaterais, tentativa de influenciar as negociações nucleares com o Irã, participação de empresas brasileiras em megaprojetos de infraestrutura na América Latina e na África, sobrou pouca coisa. “É preciso entender que houve uma mudança de cenário. O Brasil no período Lula foi favorecido pela expansão dos mercados emergentes, principalmente a China, e pelo boom de commodities”, disse Stuenkel.

Lula tentou ampliar agenda da política externa

Mantidas as bases que guiaram o governo Fernando Henrique, Lula tentou ampliar a agenda externa para temas como armas nucleares e aumentar investimentos em países da América do Sul, África e Ásia. Com Dilma, a diplomacia adotou outra postura. Abandonou tentativas de influenciar grandes questões e manteve a agenda Sul-Sul. Mas a crise deixou o cenário obscuro.

“A predisposição de um presidente em relação à política externa é importante. A Dilma não se interessou pelo tema e não quis manter o ativismo. Mas depois (no governo Temer) foi afetada pela crise interna que demandou todas as energias”, afirmou o professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da FGV.

Depois do impeachment, o Brasil ficou com dificuldades em estabelecer uma agenda propositiva em política externa. Teve alguns momentos de atuação, principalmente, no caso da Venezuela, mas acordos bilaterais e negociações com outros governos emperraram. “Como alguns países consideraram que a mudança de governo no Brasil foi irregular – expressando isso em notas e chegando até mesmo a ordenar a volta de embaixadores –, é compreensível que a política externa tenha sido de reação. Mas, aos poucos, as coisas devem começar a entrar na normalidade neste campo”, disse o embaixador Rubens Ricupero.

Em 2019, o Brasil vai sediar a cúpula dos Brics para decidir quem ocupará a próxima presidência do organismo. A negociação entre Mercosul e a União Europeia, em andamento desde 1999, também deve ser concluída em 2019.

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