Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Por Jorge Ghiorzi | 9 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A evolução do cinema pós-apocalíptico reflete os medos coletivos de cada era, moldando o fim do mundo conforme as ansiedades de seu tempo. Nos anos 1950, a paranoia da Guerra Fria traduziu-se no pavor de invasões alienígenas (A Guerra dos Mundos); nos 1960, veio o medo da aniquilação nuclear (Dr. Fantástico); nos 1970, o foco migrou para a escassez e o colapso ambiental (Soylent Green); e nos 1980, transformou-se em desolação anárquica (Mad Max 2). A virada dos 1990 trouxe o temor da dependência tecnológica (O Exterminador do Futuro 2), cedendo espaço nos 2000 às infecções em massa (Extermínio). Nos anos 2010, o subgênero aprofundou-se na ansiedade climática e no colapso sistêmico (Expresso do Amanhã), culminando nos 2020 em narrativas pós-pandêmicas pautadas pelo isolamento e pela ruptura institucional (The Last of Us). É no cruzamento do trauma recente da Covid-19 com a iminência do colapso climático que se situa Ponto Sem Retorno (The Dog Stars), no qual Ridley Scott (em seu 30º longa) sintetiza esses medos acumulados em um drama de sobrevivência íntimo e focado no microcosmo humano.
Adaptação do romance de Peter Heller, o filme contrasta a catástrofe biológica com o sofrimento silencioso da solidão. Em um aeroporto abandonado, o piloto Hig (Jacob Elordi) tenta preservar sua humanidade na cumplicidade com seu cão Jasper, sua principal âncora afetiva. Seu parceiro é Bangley (Josh Brolin), veterano ex-militar bélico e paranoico. A dinâmica se rompe quando Hig capta um misterioso sinal de rádio. Motivado a achar outros sobreviventes, voa além do perímetro de segurança e descobre uma fazenda onde vivem Pops (Guy Pearce) e sua filha, Cima (Margaret Qualley). Vencida a paranoia inicial, percebem que a sobrevivência exige unir forças.
Assumindo o papel após a saída de Paul Mescal, Jacob Elordi conduz a narrativa sob um tom melancólico, sombrio e fatalista. A atmosfera reflete a culpa que Hig carrega no íntimo. Em vez da típica aventura heroica, a narrativa prefere focar no peso psicológico de um homem incapaz de se perdoar. Cada atitude soa menos como bravura e mais como uma tentativa dolorosa de expiar escolhas do passado.
Em meio ao drama contido, o filme insere uma sequência inesperada: ao fugirem de um bando hostil, chegam a um aeroporto retrô-futurista comandado por uma alucinada comissária de bordo, vivida com vigor mórbido por Allison Janney. O local abriga uma elite hedonista e decadente, gerando tensão genuína e um estranhamento inquietante.
Contudo, esse sopro de inventividade é sufocado por cenas de ação genéricas e burocráticas para o histórico do diretor. Longe da energia visceral de obras como Falcão Negro em Perigo, as sequências cumprem apenas uma cota protocolar de adrenalina. Logo a narrativa recai em uma calmaria sem urgência, acomodando-se na busca óbvia pela sobrevivência.
Para completar o tom frio, o romance não engrena no final. Jacob Elordi e Margaret Qualley apresentam uma química nula, impedindo qualquer envolvimento com o afeto de ocasião. O que deveria ser a faísca de esperança vira um momento apático, deixando uma estranha sensação de indiferença diante de uma obra que observa o fim do mundo, mas não consegue fazer a gente sentir nada por ele.

Jorge Ghiorzi – Crítico de cinema (jghiorzi@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!