Segunda-feira, 09 de março de 2026
Por Redação O Sul | 8 de março de 2026
Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o possível tratamento de lesões medulares, a polilaminina explodiu em popularidade nas redes sociais após relatos de casos de pacientes paraplégicos ou tetraplégicos que recuperaram movimentos depois de receberem a substância.
A molécula, no entanto, foi testada em humanos em um único estudo piloto, com apenas oito pacientes e que vem sendo alvo de questionamentos da comunidade científica. Nem mesmo os estudos de fase 1, que servem para testar a segurança de um novo medicamento, foram iniciados – eles devem começar em março.
Mesmo assim, dezenas de pacientes entraram com processos na Justiça ou na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pedindo o uso compassivo da polilaminina – situação em que o paciente tem uma doença grave e nenhuma outra terapia disponível para tratá-la. Ao menos 28 deles já tiveram a substância aplicada.
Embora sejam impressionantes as imagens de pacientes antes paraplégicos voltando a andar, especialistas em lesão medular são categóricos em dizer que, com os dados que temos hoje, ainda não é possível saber se a polilaminina foi a responsável por essa melhora nem se os resultados do estudo experimental são tão promissores assim.
Isso porque, em qualquer estudo científico, há uma série de regras e métodos que devem ser seguidos para que vieses e falhas metodológicas não contaminem ou distorçam os resultados nem coloquem os pacientes em risco.
Fase piloto
O primeiro ponto é o estágio da pesquisa. Os resultados apresentados até agora em humanos referem-se apenas a um estudo piloto acadêmico com oito voluntários, dos quais três morreram (por causas não relacionadas ao tratamento, segundo os pesquisadores) e somente um voltou a andar.
Os outros quatro participantes do teste tiveram alguma melhora nos níveis de comprometimento motor ou sensitivo, mas sem grandes ganhos funcionais.
Amostras muito pequenas, como a do estudo piloto da polilaminina, sofrem grande influência do acaso. Um ou dois casos com evolução muito boa – ou muito ruim – podem distorcer os resultados e impedir que se saiba se o desfecho foi causado pelo tratamento em teste ou por outros fatores, como a própria história natural da doença.
A Anvisa aprovou em janeiro o estudo clínico de fase 1 da polilaminina, que deve começar em março, segundo a bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da UFRJ que desenvolveu a molécula.
O estudo de fase 1 testará a segurança do produto e terá a participação de cinco voluntários. Somente depois de confirmado que o novo fármaco não causa danos, ele poderá passar para as fases 2 e 3 dos ensaios clínicos, que terão um número maior de voluntários e servirão para avaliar a dose e a eficácia da droga.
Controle e dúvidas
Para que os resultados de um estudo clínico sejam considerados robustos e confiáveis, geralmente é exigido que o ensaio seja feito com a inclusão de um grupo controle. Nesse caso, os participantes são divididos em dois grupos: um que recebe o medicamento em teste e outro que recebe um placebo ou o tratamento padrão-ouro já aprovado para aquela condição de saúde, que, no caso da lesão medular, poderia ser a cirurgia de descompressão da medula e sessões de fisioterapia.
Ao final do estudo, os pesquisadores comparam quantos participantes tiveram melhora em cada um dos grupos e calculam se a diferença foi significativa. Só a partir dessa análise é possível saber se o grupo que recebeu o remédio em teste teve um desfecho mais favorável do que o grupo controle.
O estudo piloto com a polilaminina não teve grupo controle. Sem essa comparação, não é possível saber se a melhora ocorreu por causa da polilaminina ou se aconteceria de qualquer forma, já que de 10% a 30% dos pacientes que sofrem uma lesão medular recuperam parte dos movimentos.
“É por isso que, do ponto de vista científico, não dá para a gente afirmar que, pelo fato de um paciente do estudo ter voltado a andar, a molécula funciona e todos os outros vão melhorar. É uma extrapolação que não pode ser feita”, explica Roger Schmidt Brock, neurocirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Publicação
Os especialistas também questionam o fato de os resultados do estudo piloto nem sequer terem sido publicados em uma revista científica revisada por pares.
Isso importa porque a submissão dos resultados de uma pesquisa para um periódico da área funciona como uma avaliação técnica independente de outros cientistas.
É nessa etapa que são checados os métodos do estudo, os critérios de inclusão dos participantes, como foram coletados os dados, se há fatores que podem “contaminar” os resultados e se a conclusão trazida pelos autores é amparada pelos dados apresentados.
Sem revisão por pares, a comunidade científica e o público ficam dependentes da narrativa dos próprios autores da pesquisa, que, obviamente, acreditam em seu trabalho e desejam que ele seja reconhecido. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)
Você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!