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Brasil Por que Eduardo Cunha não cai?

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Interesses diversos de governo, oposição, baixo clero e aliados fiéis garantem o político na presidência da Câmara. (Crédito: Reprodução)

No jargão jornalístico, diz-se de uma história de forte apelo junto ao leitor que ela tem potencial para virar papo de botequim. O enroscado enredo em que se meteu o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, faz parte dessa categoria especial de notícia.

Entre um chope e outro, fala-se de seu estilo truculento de fazer política, de seu casamento com uma ex-apresentadora de TV e, principalmente, sobre a surpreendente revelação de sua fortuna na Suíça, com uma quantidade inapelável de provas.

Mas “a” pergunta do boteco é: com tantas evidências, como o peemedebista mantém seu cargo e influência no Congresso? Ou, simplificando, por que Eduardo Cunha não cai? Afinal, por muito menos, tantos outros, como o folclórico Severino Cavalcanti, beneficiário de um mensalinho de míseros 10 mil reais, perderam seus postos.

Algumas dessas respostas são mais óbvias e facilmente percebidas pelo leitor mais atento ao noticiário. Outras nem tanto. Aos fatos: Cunha é preservado pelo governo porque este teme o inevitável contra-ataque. O presidente da Câmara tem a caneta na mão e pode criar obstáculos ao ajuste fiscal, detonar a chamada pauta-bomba e, claro, determinar a abertura de processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff.

A oposição, ou parte dela, deseja justamente o contrário: que Cunha crie todos esses problemas para Dilma. Ou ao menos que esteja ali, com um saco de maldades a postos para o momento conveniente. Não à toa ambas as partes o buscaram para tentar um acordo.

Mas o Congresso não é composto simplesmente de governistas e oposicionistas. É mais complexo. Uma parte relevante dos atuais parlamentares, representantes de um eleitorado conservador, vê em Cunha a oportunidade de fazer avançar pautas de seu interesse – o que, aliás, vem ocorrendo.

Tome-se como exemplo o projeto que afrouxa o Estatuto do Desarmamento e, se aprovado, pode eternizar a posse de 600 mil armas, hoje concedida temporariamente. Ou ainda o Estatuto da Família, que determina que uma família só pode ser assim definida se composta a partir da união de um homem e uma mulher.

Sem Cunha, que garantias esse grupo de parlamentares tem de que propostas como essas continuarão marchando no Parlamento?

Um grupo menor, mas não desprezível, deve sua eleição diretamente a Cunha, que possui forte influência em seu partido, especialmente no Rio. Na prática, isso significa ajuda jurídica e, principalmente, financeira na campanha. Um político ligado a Cunha diz que ele mantém sob sua influência mais de uma centena de aliados. Em troca, cobra fidelidade, na saúde e na doença.

Por fim, há a Lava-Jato, sempre ela. Derrubar um deputado em razão das investigações do escândalo da Petrobras significa abrir um precedente perigoso para quem já surgiu e para quem ainda vai surgir na história cabeluda (alguém ainda duvida disso?).

Nessas horas, um sentimento de autopreservação, o chamado espírito de corpo, entra em campo e atua fortemente no Legislativo. Sempre foi assim, sempre será.

Cunha, que, a despeito das cópias de documentos deixadas nas repartições suíças, não é bobo nem nada, está na dele. Assumir um lado significa transformar o outro automaticamente em inimigo. E, assim, vai levando.

Mas na política tudo é possível. Como já se viu algumas vezes, se o azedume extrapolar os limites do poder e chegar às ruas, os aliados mais fiéis pulam do barco com a mesma facilidade com que entraram. (Alan Gaipp/AG)

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