Segunda-feira, 18 de maio de 2026
Por Lenio Streck | 8 de agosto de 2020
Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê?
Foto: Marcos Santos/USP ImagensEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Um amigo mandou-me um cálculo. Comprou um saquinho de orégano de 3g por R$ 1,99. Barato, não? Lego engano. O quilo sai por incríveis R$ 633,33. Todos nos enganam fazendo essas embalagens pequenas e fazendo parecer que é barato e bom. E vão comendo pelas beiradas… Esgarçando aos poucos. Tinta para impressora parece barato… Vendida em pequeníssimas porções. Fosse por quilo, duvido que alguém compraria. Custa R$ 13.575,00. Bom, a champagne Veuve Clicquot custa só R$ 1,29 por mililitro (é sarcasmo!).
Assim é o nosso cotidiano. Vemos a árvore e não damos conta da floresta. E de seus perigos. Somos enganados pelas companhias telefônicas, pelos bares dos aeroportos, pelos taxistas, pelos azuizinhos, pela EPTC, pela Prefeitura, pelos governos, pelas promessas de segurança pública… Todos os dias.
E nem nos damos conta. Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê? Porque a grande maioria não compra Veuve Clicquot. Na verdade, nem pensamos em comprar a tal champagne porque ela não é vendida (só) a R$ 1,29 o mililitro. Talvez se fosse vendida em drops, compraríamos. Mas compramos o orégano e as ligações telefônicas.
Mesmo na pandemia, os estacionamentos nos esfolam cotidianamente. Estacionei meu carro no Posto que fica ao lado Praça Júlio de Castilhos, na 24 de outubro. O carro ficou 5 horas. Custou 70 reais.
Muitos estacionamentos já não aceitam cartão! Só dinheiro! Nas estradas, não conseguimos andar. Mesmo na pandemia, continua a esculhambação na BR-116 no trecho São Leopoldo até Novo Hamburgo.
Mas é um engarrafamento que dura só, cada dia, 30 minutos. Ah, bom. Tudo em pílulas. Compramos em pílulas e não calculamos o preço do “quilograma social”.
Pós-verdades
De algum (ou todo) modo, isso se liga aos tempos atuais. Uso a ferramenta “redes sociais” para divulgação de meus livros, artigos e colunas que escrevo. De algum modo, a pós-modernidade deve servir para alguma coisa, além de alienar as pessoas.
As redes sociais, como qualquer ferramental, servem para o bem e servem para o mal. É como a pólvora, o álcool etc. Platão dizia que a linguagem é um bálsamo… ou um veneno. Embora os debates sejam frágeis, as redes sociais me ajudam.
Claro que os comentários não passam de cinco ou dez linhas. Mas, vá lá. É melhor do que escrever uma carta e ir ao correio postá-la. Reconheço isso. Reconheço também que, por vezes, eu mesmo exagero. Já coloquei coisas nas redes, que, penso, não eram necessárias. Eu mesmo não sei o limite.
Não podemos nos eximir de discutir a nossa inserção nessa pós-modernidade (que não se sabe bem o que é). Assim:
– Essa “coisa” de que o mundo só existe se for fotografado ou registrado é ou não é uma alienação?
– Por que eu devo ficar sabendo do prato que você comeu ontem ou vai comer hoje? Imaginemos que a cada dia cada um dos bilhões de facebookeanos e instagranianos acorde e poste: fui ao banheiro, escovei os dentes, deu uma urinada, depois fiz não sei o que e agora estou tomando café da marca tal, comendo meio brioche e agora vou….
-Transformamos nossa vida em narrativas?
– Se não narramos o mundo, ele não mais existe? O que é a existência, então?
– Ao mesmo tempo, todos se queixam de invasão de privacidade. Mas são os primeiros a mostrar até as calcinhas ou as cuecas para o mundo todo; já vi postagem de uma pessoa escovando os dentes. E agora no Instagram, então…Bah!
– Por que será que queremos mostrar nossas entranhas?
– Isso não transforma nossa relação com o mundo em uma coisa explícita-tipo-pornográfica, em vez de erótica (eros-vida)?
E agora tem o TikTok. Vi outro dia advogadas fazendo publicidade. Duas vezes Bah!
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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Discordo do cidadão q acha q perdeu três minutos de seu precioso tempo lendo o texto, até pq, acredito q seu tempo não seja tão precioso assim. Mas a questão usada como exemplo principal, o preço do orégano, não creio q seja a mais apropriada, até pq, um quilo de orégano, para mim, duraria talvez uns 10 anos pra mais, isso desconsiderando o prazo de utilização, nesse caso, R$ 633,33 para 10 anos até q está de bom tamanho, quem dera todas as coisas fossem tão baratas. Os demais exemplos, esses sim, nos enfiam goela abaixo e são deveras caro.… Leia mais »
Boa tarde Lenio. Vejo a tua preocupação inicial com preço do orégano nada mais é uma escaramuça para reclamar o preço do champanhe Viuve Cliquot e dos estacionamentos de Porto Alegre. Como não bebo bebida alcoólica, não posso fazer a defesa ou te ajudar em argumentos para ensejar qualquer crítica ao valor agregado do champanhe. Agora, quanto aos estacionamentos, pois sou dono de um, tenho a te dizer o seguinte: primeiro, realmente concordo que o valor de R$ 70,00 por cinco horas está caro. Mas o que tenho te dizer é que a maioria dos estacionamentos nos melhores locais estratégicos… Leia mais »
Bah! Perdi três minutos lendo esta coluna. Se continuar assim vou passar minhas horas LENDO BESTEIRAS!