Quarta-feira, 17 de junho de 2026

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Brasil Presos já lembram com saudades dos banquetes de Marcelo Odebrecht na prisão

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 Sempre que alguém gostava de algum prato, Marcelo contava à mulher. (Foto: Agência Brasil)

“Esconde tudo! Esconde tudo! Daqui a uma hora quero todo mundo dentro da cela. Nós vamos trancar vocês.” A ordem do delegado e dos agentes assustou os presos da Operação Lava-Jato que estavam na carceragem da PF (Polícia Federal), em Curitiba.

O doleiro Alberto Youssef escondeu sua sanduicheira embaixo da cama. O empreiteiro Marcelo Odebrecht guardou o aparelho de step. Os presos entraram nas celas. “Vamos receber visita”, explicou um dos policiais.

Pouco depois, o delegado voltou com homens e mulheres elegantemente vestidos. Faziam perguntas aos agentes.Quando foram embora, os carcereiros disseram quem eram aquelas pessoas. Elas integravam a equipe do filme “Polícia Federal: A Lei É Para Todos.

Foi um episódio deprimente para os encarcerados. “Parecíamos macaquinhos no zoológico”, diz um dos que cumpriam pena na época. A tal visita interrompeu mais um dia como tantos outros na ala da carceragem da PF que abrigava os presos mais célebres da Lava-Jato.

Marcelo Odebrecht, que deixará o local no dia 19 para cumprir prisão domiciliar, sempre foi a estrela maior do lugar, que, pelos presos que abrigava, ganhou o apelido de “ala VIP”. Lá estão, por exemplo, o ex-ministro Antonio Palocci, o ex-executivo da Petrobras Renato Duque e o ex-deputado Pedro Corrêa. Pelo setor passaram ainda os doleiros Alberto Youssef e Nelma Kodama, os publicitários Mônica Moura e João Santana e empreiteiros da Andrade Gutierrez.

No começo da Lava-Jato, a vida era dureza na “ala VIP”. Youssef e Nelma Kodama chegaram a ficar mais de um ano trancafiados por 22 horas diárias, com direito a duas horas de banho de sol.

Quando Marcelo Odebrecht chegou para ficar, em fevereiro de 2016, depois de passagens por outras alas e pelo Complexo Médico Penal de Pinhais, já não havia tanto rigor. Uma geladeira tinha sido instalada no local. Com autorização oficial, a ala foi equipada ainda com TV e micro-ondas.

Todos os equipamentos foram instalados no corredor que une as três celas da ala – uma delas é destinada às presas mulheres e as outras duas, aos homens. Engradados de água e refrigerante e outros mantimentos eram armazenados no local.

O corredor funciona também como espaço de convivência. Nele há um sofá improvisado, onde os presos se instalavam para ver filmes que recebiam em pen drives enviados pelas famílias.

João Santana costumava acordar às 4h para ler. Nelma Kodama despertava mais ou menos na mesma hora e, atenciosa, esquentava água no micro-ondas e fazia café solúvel para ele.

Odebrecht pedia para Nelma acordá-lo entre 6h e 6h30min. Almoçava. À tarde, escrevia cartas, uma espécie de diário, para a mulher e as filhas. E estudava seus processos. “Você tá é escrevendo a tua delação, né?”, dizia a ele Pedro Corrêa, o mais brincalhão.

Odebrecht era fechado. Não perguntava nada nem contava nada a ninguém. Mas era “o mais solidário de todos”, de acordo com um ex-companheiro de cela. Houve um dia, no entanto, em que os companheiros de cela perceberam que Marcelo fraquejou. Foi quando o Supremo Tribunal Federal julgou, em abril de 2016, o pedido de habeas corpus dele e de dois outros presos da Odebrecht. Os executivos foram soltos. Ele acabou permanecendo em Curitiba.

A notícia foi vista por todos na TV. “Que sacanagem, Marcelo”, solidarizaram-se os amigos do cárcere. No mesmo dia, recebeu a visita da mulher, Isabela. “Ela chorava muito, muito. Sem parar”, diz uma das testemunhas. Mesmo com todos os reveses, resistia em aderir a um acordo de colaboração. “Não temos o que delatar”, dizia. Em momentos de exaltação, afirmava: “Isso não é delação. Querem a nossa rendição. Isso não existe!”.

Não reclamava de nada. Em cerca de dois anos, só uma vez foi visto falando mal de outra pessoa: seu próprio pai, Emílio Odebrecht.

“Meu pai não pensa em ninguém. Só nele”, disse. “O que é isso, rapaz? Todo pai pensa no filho”, contestava Pedro Corrêa. As divergências em relação à condução da delação levaram ao rompimento entre pai e filho. Numa das visitas da mãe, Regina, Marcelo teria dado um ultimato: ou eu ou ele. E pediu que ela não o visitasse mais.

Por um bom tempo, o empreiteiro dormiu em um colchonete no corredor da carceragem. É que só os mais antigos ocupavam camas. Os novatos tinham que esperar por uma vaga. Odebrecht herdou a cama de José Antunes Sobrinho, da Engevix, quando ele deixou a prisão.

Mônica Moura, mulher de João Santana, dormiu num colchão no corredor até o dia em que Nelma Kodama, que foi presa um ano antes dela, foi embora, deixando a cama vaga. Já Alberto Youssef cedeu a cama a Pedro Corrêa e dormia no chão.

Um dos grandes problemas da carceragem era a sinfonia da madrugada – todos roncavam, sem exceção. Um dos mais barulhentos era Renato Duque, a todo momento cutucado pelos colegas para mudar de posição. Os que ficavam acordados até mais tarde caíam na risada.

As refeições enviadas por Isabela, mulher de Marcelo Odebrecht, em enormes tupperwares, eram consideradas verdadeiros banquetes. Um dos hits era o escondidinho de aipim [mandioca] e carne de fumeiro, ou porco defumado. Sempre que alguém gostava de algum prato, Marcelo contava à mulher. Na próxima visita, ela enviava a refeição exclusivamente para a pessoa que apreciou a guloseima.

 

 

 

 

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