Quarta-feira, 08 de abril de 2026
Por Renato Zimmermann | 27 de janeiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Nos últimos meses, manchetes ao redor do mundo chamaram atenção para ondas de frio intensas que atingiram regiões como o norte dos Estados Unidos, partes da Rússia e países do norte da Europa. Temperaturas despencaram para patamares históricos: em Minnesota, os termômetros chegaram a -35 °C; em Moscou, a sensação térmica ultrapassou -40 °C. Para muitos, a pergunta surge de imediato: se o planeta está aquecendo, por que vemos tanto gelo e neve? A resposta, embora contraintuitiva, é clara: esses episódios são mais uma evidência do aquecimento global e do desajuste climático que ele provoca.
O paradoxo do calor que gera frio
O aquecimento global não significa apenas que o planeta ficará mais quente em todos os lugares, o tempo todo. Ele representa um desequilíbrio no sistema climático da Terra. Desde a Revolução Industrial, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera saltou de cerca de 280 partes por milhão (ppm) para mais de 420 ppm em 2025. Esse aumento retém calor, altera correntes oceânicas e modifica padrões atmosféricos.
Um exemplo didático é o Ártico. Essa região aquece quatro vezes mais rápido que a média global. O gelo que antes funcionava como um “ar-condicionado” natural está desaparecendo. Com menos gelo, o oceano absorve mais calor e o ar frio que costumava ficar confinado no Polo Norte escapa com maior facilidade. É o chamado “deslocamento do vórtice polar”. Resultado: massas de ar gelado descem para latitudes médias, congelando cidades que antes tinham invernos menos severos.
O efeito dominó no clima
Esse fenômeno não é isolado. O aquecimento global cria uma cadeia de eventos interligados. Correntes marítimas como a Corrente do Golfo, que regula o clima da Europa e da costa leste dos EUA, estão enfraquecendo. O derretimento da Groenlândia despeja bilhões de toneladas de água doce no Atlântico, alterando a salinidade e, portanto, a densidade da água. Isso afeta a circulação oceânica e, por consequência, os padrões de vento e chuva.
Assim, enquanto o sul da Europa enfrenta secas severas e incêndios florestais cada vez mais frequentes, o norte pode ser atingido por tempestades de neve recordes. O planeta não está apenas “mais quente”: está mais instável.
Números que não deixam dúvidas
– A Organização Meteorológica Mundial aponta que os últimos nove anos foram os mais quentes já registrados desde o início das medições.
– O gelo marinho do Ártico perdeu cerca de 75% de seu volume desde 1979.
– Eventos extremos, como ondas de calor, secas e tempestades, aumentaram em mais de 40% nas últimas três décadas.
Esses dados reforçam que o frio extremo em regiões específicas não contradiz o aquecimento global. Pelo contrário, é consequência direta dele.
O desafio da comunicação
Parte da confusão vem da forma como o tema é comunicado. “Aquecimento global” dá a impressão de que tudo deveria estar mais quente. Mas o termo correto, usado por cientistas, é “mudança climática”. Ele traduz melhor a ideia de um sistema em desequilíbrio, capaz de gerar tanto calor sufocante quanto frio extremo.
Infelizmente, esse paradoxo é explorado por campanhas de desinformação. Nas redes sociais, não é raro ver comentários irônicos: “Se está nevando, cadê o aquecimento global?”. Essa simplificação ignora a complexidade do sistema climático e alimenta dúvidas injustificadas.
Entender para não se enganar
O planeta funciona como uma engrenagem dinâmica, em que oceano, atmosfera, gelo e vegetação estão interligados. Alterar uma peça – como a concentração de gases de efeito estufa – desajusta todo o mecanismo. É por isso que o frio intenso em Moscou ou Chicago não é um sinal de que o aquecimento global é falso, mas sim uma prova de que ele está em curso.
Compreender essa dinâmica é essencial para não cair em armadilhas de desinformação. O clima não é uma fotografia estática, mas um filme em constante movimento. E, nesse filme, os sinais de desequilíbrio estão cada vez mais claros. Reconhecê-los é o primeiro passo para agir com responsabilidade e exigir políticas que enfrentem a crise climática.
(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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